Celebrar 60 anos da TV Globo em um palco não é uma tarefa simples. Transformar décadas de novelas, programas humorísticos, jornalismo, esporte e momentos históricos da televisão brasileira em um espetáculo musical poderia facilmente cair na armadilha da caricatura ou do excesso de referências vazias.
Mas 'Espelho Mágico: O Musical', escrito e dirigido por Gustavo Gasparani, consegue emocionar verdadeiramente quem cresceu diante da televisão.
Em cartaz no Rio de Janeiro, o espetáculo impressiona pela grandiosidade logo nos primeiros minutos. Dividido em dois atos, o musical é extremamente dinâmico e praticamente não dá tempo para o público respirar.
A primeira grande virtude está no elenco. São 32 artistas em cena com uma sintonia tão afinada que, em determinados momentos, parecem funcionar como um uma só vida. Não há dúvidas de que Eliane Giardini é um espetáculo à parte.
Ao viver a simbólica Nossa Senhora das Oito, ela domina o palco com carisma, humor e emoção. Sua presença cênica dá ao musical um ar quase afetivo, como se ela representasse a memória emocional do telespectador brasileiro.
No centro, Marcos Veras brilha como Alfredo, um escritor que tenta transformar um musical em produto televisivo. Os dois conduzem a narrativa com leveza e fazem a peça ganhar humanidade em meio ao gigantismo da produção.
Outro mérito enorme está na forma como o espetáculo consegue dialogar tanto com o público apaixonado por televisão quanto com quem não domina profundamente a história da Globo. As referências são didáticas e nostálgicas... e entram diálogos mais curiosos.
A lembrança de que Janete Clair praticamente reconstruiu do zero a a novela 'Anastácia, a Mulher sem Destino', em 1967, por exemplo, é o tipo de informação que se torna aprendizado.
Além disso, chama atenção a maneira como a peça aborda a transformação tecnológica da comunicação. O texto passeia da máquina de escrever às plataformas digitais sem soar antiquado ou excessivamente didático.
Musicalmente, o espetáculo também funciona muito bem. A banda ao vivo dá ritmo às cenas e ajuda a criar uma atmosfera envolvente.
Justamente na ambição de abraçar seis décadas de televisão surgem os problemas da montagem.
Em alguns momentos, 'Espelho Mágico: O Musical' sofre com uma espécie de 'poluição visual e narrativa'. A tentativa de condensar muitos acontecimentos históricos em pouco tempo faz certas transições parecerem confusas. Falta, em determinados trechos, uma linha cronológica mais clara para orientar o espectador.
O exemplo mais gritante talvez seja a inserção repentina das identidades visuais da programação da Globo durante esse tempo, como a de Chef de Alto Nível em meio a cenas que sequer dialogavam com realities culinários.
A sensação é de interrupção publicitária, lembrando o 'Jequiti' do SBT, quase como um merchandising deslocado dentro da narrativa.
Esse excesso de estímulos acaba prejudicando um pouco a fluidez da experiência. Em alguns trechos, o espectador precisa de alguns segundos para entender em que momento histórico está ou qual referência está sendo construída.
Outro ponto debatível está na seleção dos personagens homenageados. É maravilhoso ver figuras icônicas como Carminha, de 'Avenida Brasil', Raquel, de 'Vale Tudo', Odorico Paraguaçu, de 'O Bem-Amado', e Sinhozinho Malta, de 'Roque Santeiro'.
Porém, alguns personagens extremamente populares ficaram de fora e fazem falta emocionalmente ao espetáculo. É impossível não sentir ausência de uma Nazaré Tedesco, de 'Senhora do Destino', por exemplo.
Ainda assim, os tropeços não diminuem a força do projeto. 'Espelho Mágico: O Musical' É o tipo de produção que faz os olhos brilharem de quem cresceu diante da TV e que merece ser vista justamente por entender que televisão também é memória afetiva.
A partir de 15 de maio no Teatro Riachuelo Rio
Quintas e sextas, às 20h. Sábados, às 16h e 20h. Domingos, às 15h.
Ingressos:
* Plateia VIP: R$ 180
* Plateia comum: R$ 140
* Balcão nobre: R$ 80
* Balcão: R$ 50
Local:
Teatro Riachuelo Rio.
Endereço: Rua do Passeio, 38/40 – Centro, Rio de Janeiro