“Não podemos resolver um problema da mesma forma que o criamos.” Poucas frases são tão repetidas em livros de desenvolvimento pessoal, perfis do LinkedIn e publicações motivacionais. E poucas têm uma história tão curiosa por trás. Porque Albert Einstein nunca disse isso. Ou, pelo menos, não exatamente dessa forma. Embora isso não torne a lição menos verdadeira.
A citação, atribuída durante décadas ao físico alemão, é, na verdade, uma versão simplificada de uma reflexão muito mais complexa que ele fez em 1946.
O mundo acabara de sair da Segunda Guerra Mundial e as bombas atômicas haviam demonstrado até onde pode chegar a capacidade de destruição do ser humano. E Einstein, que havia dedicado grande parte de sua vida a compreender as leis do universo e nasceu em 1879 e morreu em 18 de abril de 1955, aos 76 anos, estava preocupado com algo muito mais terreno: o futuro da humanidade.
“Um novo tipo de pensamento é essencial para que a humanidade sobreviva e avance para níveis mais elevados.”
Einstein escreveu isso em um telegrama e manifesto no qual pedia apoio ao Comitê de Emergência de Cientistas Atômicos para alertar o mundo sobre os perigos das armas nucleares. Posteriormente, foi publicado no “The New York Times” em 23 de junho de 1946 sob o título “O verdadeiro problema está no coração dos homens”.
Portanto, com suas palavras, ele não falava de produtividade, nem de liderança empresarial, nem de como enfrentar uma segunda-feira complicada. Ele falava de sobrevivência. Da necessidade de evoluir nossa maneira de pensar para não repetirmos os mesmos erros que levaram o mundo à beira do abismo.
Com o passar dos anos, essa ideia se condensou em uma frase muito mais simples e fácil de compartilhar. E, embora não seja uma citação literal, ela mantém intacto o cerne do que o ganhador do Prêmio Nobel tentava transmitir: os problemas raramente são resolvidos a partir do mesmo estado mental em que surgiram.
O pior é que ela continua válida quase um século depois. Não apenas porque parece que estamos passando por uma mudança de época cultural que tende a retroceder para velhos costumes, ideias e hábitos.
Mas também porque vivemos em uma época que valoriza a rapidez e, mais do que nunca, tomamos decisões sob a pressão de reagir antes mesmo de ter refletido. A imediatismo se tornou uma espécie de reflexo automático. Se algo não funciona, fazemos mais do mesmo, mas mais rápido.
No entanto, muitos dos problemas que nos acompanham, como o esgotamento; a sensação de estarmos sempre ocupados; as relações que se repetem seguindo padrões ou a dificuldade de desligar, geralmente não se resolvem com mais velocidade e repetição. Às vezes, exigem exatamente o contrário. Exigem que paremos.
Porque mudar de forma de pensar nem sempre significa ter uma ideia brilhante. Às vezes, significa fazer uma pergunta diferente daquela que não nos ocorre à primeira vista. Ou aceitar que a solução mais eficaz não é a mais fácil. Ou reconhecer que insistir em uma estratégia apenas porque sempre a utilizamos não a torna a correta.
É desconfortável porque mudar de perspectiva exige tempo, paciência e a possibilidade de errar. Significa abandonar o caminho conhecido para explorar outros novos. Mas é também aí que costumam surgir os avanços mais interessantes, tanto no nível individual quanto coletivo.
Talvez por isso essa frase apócrifa seja tão popular, porque aponta para uma verdade que ainda precisamos ouvir: nem sempre é preciso se esforçar mais, às vezes é preciso pensar diferente. E, em um mundo obcecado pela velocidade, o mais revolucionário é nos conceder tempo para nos perguntarmos se estamos tentando resolver o problema aplicando exatamente a mesma mentalidade que o criou.