Durante décadas, os pratos de vidro na cor âmbar da Duralex estiveram presentes nas cozinhas brasileiras sem chamar muita atenção, especialmente nas casas das nossas avós. Muitos de nós nos lembramos dessa iguaria nos almoços de domingo e, em certo momento, até achávamos aquela cor nada sofisticada... mas o mundo dá voltas e hoje é um item raríssimo de colecionador.
As peças deixaram de ser apenas uma lembrança afetiva para se tornar objeto de desejo entre colecionadores e apaixonados por decoração retrô. A mudança de percepção fez disparar o valor da linha âmbar, descontinuada no Brasil em 2012, e pratos que custavam poucos reais há pouco mais de uma década agora são vendidos por centenas de reais cada um em sites especializados.
Há conjuntos completos anunciados por mais de R$ 3 mil e coleções raras que chegam perto dos R$ 50 mil no mercado de revenda.
A marca nasceu em 1945, na França, criada pela Saint-Gobain. O nome Duralex faz referência à expressão em latim "Dura lex, sed lex", que significa "A lei é dura, mas é a lei", uma forma de transmitir a ideia de resistência e durabilidade.
Seu grande diferencial era o vidro temperado, aquecido a cerca de 600 graus durante a fabricação. Além de suportar mudanças bruscas de temperatura, o material se fragmentava em pequenos pedaços caso quebrasse, reduzindo o risco de acidentes com cacos de vidro.
A produção chegou ao Brasil nos anos 1980, quando a Santa Marina passou a fabricar a linha âmbar, que não demorou muito a se tornar um sucesso. Mais barata que muitas louças tradicionais e extremamente resistente, ela virou presença constante em casas, padarias e restaurantes.
A marca chegou a produzir mais de 130 milhões de peças em todo o mundo e empregou cerca de 1.500 pessoas.
Até pouco mais de dez anos atrás, um prato Duralex podia ser comprado por cerca de R$ 3 a R$ 5. Hoje, o cenário é completamente diferente. Em plataformas de revenda, um conjunto com quatro pratos pode ultrapassar R$ 400, enquanto jogos maiores chegam à casa dos milhares de reais.
Considerando o preço original, especialistas estimam que algumas peças tiveram valorização superior a 1.000%. Para o professor e consultor de comunicação e marketing digital Lucas Taidson, a nostalgia explica boa parte desse fenômeno.
"A estética retrô, a questão nostálgica, vem muito do resgate de memórias afetivas. Muitas pessoas têm lembranças de almoços de família, de situações do cotidiano em que esses objetos estavam presentes. Isso faz com que exista um valor simbólico muito grande. Hoje, com as redes sociais, isso é potencializado. As pessoas compartilham essas lembranças, mostram seus achados, e isso cria um ciclo que aumenta ainda mais o interesse. Quando somamos a isso a tendência de consumo consciente, do reaproveitamento e da valorização do que é durável, o resultado é essa corrida para conseguir um item que, até pouco tempo atrás, passava despercebido na cozinha", disse à CBN.
A trajetória da empresa mudou com o aumento da concorrência internacional, principalmente de fabricantes chineses, além da alta dos custos de produção e da crise enfrentada pela matriz francesa.
A Duralex entrou em recuperação judicial em 2008 e voltou a enfrentar dificuldades durante a pandemia, quando perdeu mais da metade do faturamento. Em 2021, a operação francesa foi vendida para a empresa proprietária da Pyrex.
No Brasil, a Santa Marina foi adquirida pela Nadir Figueiredo em 2011, que passou a controlar a marca nacionalmente. No ano seguinte, a tradicional linha âmbar deixou de ser fabricada e nunca mais voltou ao mercado. Hoje, a empresa comercializa apenas versões transparentes e azuis, mas já informou que não há previsão para relançar os modelos marrons - para a tristeza dos nostálgicos.
Para o especialista em marketing Fernando Miranda, a valorização segue uma lógica bastante conhecida no mercado: "Quando um produto deixa de ser fabricado, automaticamente ele entra em um processo de valorização. Isso é potencializado quando existe um grupo de pessoas que começa a falar sobre ele, a postar fotos, a criar um senso de comunidade em torno do item".
"As pessoas não compram apenas o prato, mas a história que ele carrega. E no caso da Duralex âmbar, ainda existe essa combinação de resistência e estética, que faz com que ele seja visto como um objeto de desejo. É algo que, para alguns, é investimento, e para outros, pura paixão colecionista. E aí, quanto mais raro, mais caro", completou.
Por isso, quem ainda guarda pratos, copos ou travessas da antiga linha Duralex pode ter uma surpresa. Antes de vender, especialistas recomendam pesquisar os valores praticados no mercado, consultar antiquários e verificar o estado de conservação das peças. Em muitos casos, aquilo que passou anos esquecido no armário da cozinha pode valer muito mais do que se imagina.