Quase 4 décadas depois, por conta do sucesso mundial da série "Emergência Radioativa", a história de Leide das Neves Ferreira segue comovendo o país, e ganhando novos capítulos.
Em meio aos relatos recentes sobre vítimas do Césio-137, a mãe da menina, Lourdes, voltou a expor detalhes marcantes da tragédia que transformou a filha de 6 anos em símbolo nacional.
Tudo teve início em setembro de 1987, quando uma cápsula radioativa foi retirada de uma clínica abandonada em Goiânia. Encantado pelo brilho incomum, o material acabou sendo levado para um ferro-velho e, pouco depois, para dentro de casa.
Foi ali que Leide teve contato direto com o pó brilhante. A cena, descrita por familiares, revela o impacto da desinformação: a menina brincou com a substância, sem imaginar o perigo. Horas depois, surgiram os primeiros sintomas, um sinal do que se tornaria uma das maiores tragédias radiológicas do mundo.
Pouco tempo após a exposição, a menina apresentou sintomas graves, como vômitos e mal-estar. A situação se agravou nos dias seguintes, levando à internação em unidades especializadas. Mesmo com transferência para hospitais de referência, o quadro não foi revertido.
Ao jornal "O GLOBO" da época, o diretor da Divisão de Saúde da Marinha, Almirante Almihay Burlá definiu a pequena como "uma menina alegre, que brincava com as várias bonecas que recebeu de presente".
"Mas seu estado geral foi piorando e, no final, ela estava apática, totalmente desinteressada'. O Almirante disse que ela morreu de parada cardíaca e respiratória, 'mas o que a matou mesmo foi a radiação'", constava ainda na publicação.
A rápida piora no estado de saúde levou Leide a hospitais especializados, mas não houve reversão. "Na menina Leide, os órgãos mais atingidos foram o intestino grosso e a bexiga", revelou o jornal "O GLOBO" em outubro de 1987.
Em 23 de outubro, ela morreu vítima de síndrome aguda da radiação.
O enterro, porém, foi outro capítulo dramático. Tomados pelo medo da contaminação, moradores tentaram impedir a cerimônia, em um episódio que expôs o pânico coletivo. O caixão, revestido com chumbo e pesando cerca de 700 kg, precisou de operação especial, uma despedida marcada por tensão e comoção.
Além da perda irreparável, a família enfrentou consequências duradouras. A casa foi demolida, objetos pessoais descartados como lixo radioativo e a rotina nunca mais voltou ao normal.
Hoje, Lourdes vive com uma pensão considerada insuficiente, enquanto ainda lida com lembranças da filha. Fotos de Leide, que puderam ser descontaminadas, se tornaram seu maior tesouro. “Faltava ela”, resume, ao recordar a vida reconstruída após o acidente.
Mesmo após 38 anos, a história permanece como alerta, e também como símbolo de dor, memória e resistência.
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