Antes de conquistar o mundo com uma bicicleta voando diante da lua em 1982, a produção do filme 'E.T. - O Extraterrestre' precisou resolver um problema que nenhum efeito especial da época dava conta: como fazer um alienígena parecer vivo, frágil e próximo do público. A criatura criada para o filme se movia, piscava e reagia, mas algo ainda soava artificial... e foi quando uma escolha improvável mudou tudo.
A solução não veio de um estúdio tecnológico, mas da vida real. Para que o ET tivesse um andar natural e um corpo que transmitisse vulnerabilidade, Steven Spielberg e sua equipe decidiram colocar alguém dentro do traje. O desafio era encontrar uma criança pequena o suficiente e capaz de se mover com naturalidade.
Assim, quase por acaso, surgiu Matthew DeMeritt, então com 11 anos, nascido sem as pernas e acostumado, desde sempre, a se locomover com os braços.
Matthew nunca sonhou com cinema, fama ou atuação. Para ele, usar os braços para se mover era apenas parte do dia a dia. O que ninguém imaginava era que esse jeito único de andar se tornaria a alma de um dos personagens mais queridos da história do cinema. Enquanto a animatrônica cuidava das expressões faciais, era o corpo de Matthew que dava ritmo, peso e verdade ao ET.
O figurino, desenvolvido pelo mestre dos efeitos Carlo Rambaldi, foi pensado para parecer úmido e delicado. A cabeça do ET ficava sobre a de Matthew, que enxergava por uma pequena abertura no peito do traje. Assim como sofreu Jim Carrey com sua fantasia de 'O Grinch', o pequeno ator não contava com nenhum tipo de ventilação ou conforto.
"Eles colocavam por cima da cabeça e você ficava preso ali dentro", contou Matthew anos depois. Embora outras pessoas tenham interpretado o ET em cenas específicas, Matthew era chamado sempre que o personagem precisava tropeçar, cair ou reagir de forma mais física. "Eles me usaram em todas as cenas em que o ET tinha que cair", relembrou.
Acostumado a sustentar o peso do próprio corpo nos braços, ele fazia movimentos que seriam arriscados para outros intérpretes. Pode ser que o público não tenha notado, mas algumas das cenas mais lembradas do filme carregam sua marca: o cambalear após beber cerveja, o desmaio assustado no Halloween, o andar hesitante que mistura curiosidade e medo - e muitos outros.
Apesar das exigências físicas, Matthew guarda boas lembranças do set. O cineasta Steven Spielberg fazia questão de checar se ele estava bem e criou um ambiente leve para as crianças, com espaço para brincadeiras e videogames entre uma cena e outra. Para um menino que já enfrentava o bullying fora dali, aquele cuidado fez toda a diferença.
Quando as filmagens terminaram, Matthew voltou para a escola e percebeu que algo havia mudado. O bullying que enfrentava simplesmente acabou, a amizade com os atores Henry Thomas e Robert MacNaughton continuou fora das telas e a experiência que teve no set mudou sua forma de ser. "Acho que o ET me deu confiança", admitiu.
Diferente do que muitos imaginam, ele não seguiu carreira em Hollywood e preferiu uma vida discreta, longe dos holofotes. Hoje, vive a algumas horas de Los Angeles, é professor universitário, joga basquete em cadeira de rodas, compõe músicas e cultiva paixões simples. Ele atuou poucas vezes depois, quase sempre em produções independentes, e nunca buscou transformar o sucesso do filme em fama pessoal.
Hoje, Matthew fala sobre o ET com tranquilidade. Sem estrelismo e com consciência do que viveu. Seu rosto nunca foi exibido no cinema, mas seu corpo, seu movimento e sua história continuam eternizados no alienígena que ensinou o mundo inteiro a pedir: "E.T., telefone para casa".