Quando você era criança, já escutou seu pai ou sua mãe falarem que você era uma "criança fácil"? E, depois de mais velha, eles já te descreveram para os outros como alguém que "nunca deu trabalho" na infância? Isso pode parecer um grande elogio, mas a verdade é que ser uma criança "tranquila" demais pode impactar muito a sua personalidade e a sua vida adulta.
Afinal, por que você se esforçava tanto para merecer esse título de "criança fácil"? A resposta costuma ser simples: ser uma pessoa "sem problemas" acaba se tornando um traço de personalidade e você começa a se encolher tanto até o ponto de que todos os outros consigam lidar com você sem perceber o peso.
O problema é que ser "fácil" é algo que vai sendo levado para toda a vida. Assim, você vai crescendo sem falar seus problemas, guardando tudo para si e evitando se expor - tudo para não "dar trabalho" para ninguém. Afinal, isso era motivo de elogio na infância! No fim das contas, você começa a perceber tarde demais que está esperando que alguém pergunte como você está de verdade. Porém, não sabe como pedir isso e nem como responder a essa pergunta de forma sincera, já que nunca aprendeu.
Veja a seguir alguns sinais típicos de uma pessoa que foi uma "criança fácil":
Crianças "fáceis" costumam aprender as coisas sozinhas, pois assim podem resolver qualquer problema sem causar um fardo para ninguém. Às vezes alguém até poderia ajudar, mas elas param de pedir ajuda antes mesmo de ouvir um não.
Na vida adulta, a pessoa se torna meio confusa sobre o que quer. Afinal, querer coisas que exigem outros sempre pareceu demais. É comum que essas pessoas digam que são fáceis de agradas mas, na verdade, apenas são acostumadas a querer menos. Pensa só: se alguém te pergunta onde quer comer, você sabe responder? Às vezes você até tem suas preferências e sabe o que tem vontade, mas como o hábito de não ter preferências e aceitar as dos outros está tão enraizado que você nem sabe identificá-las.
As crianças fáceis param de fazer muitas perguntas e, ao invés disso, desenvolvem soluções. Por isso, perdem essa habilidade até na vida adulta. Ao invés de reclamar diretamente, a pessoa faz um comentário. Suspira ao invés de mostrar cansaço.
Tudo isso é uma tentativa de dar uma indireta do que está sentindo para ver se o outro percebe, mas sem necessariamente perguntar, se expor e correr o risco de atrapalhar. O problema é que isso exige que o outros esteja muito atento, e a maioria não está.
Quando uma pessoa que foi "fácil" na infância percebe que alguém notou seus sentimentos, ela costuma apresentar choque. Basta alguém comentar algo simples, como "parece que você está em um momento difícil" e pronto: a sensação é de que você foi pega no flagra. Isso deixa a dúvida se você se sente aliviada ou envergonhada.
O problema é que os sentimentos não desaparecem, apenas se tornam mais difíceis de encontrar. A pessoa fica desorientada porque nem se lembra mais que é possível que alguém note o que ela está passando. Para a psicologia, a supressão emocional faz com que pessoas que escondem muito seus sentimentos acabem se tornando melhor não só em fazer isso com os outros, mas consigo mesmas também.
Crianças fáceis costumam assumir o papel mais difícil, se tornam líderes de tarefas complicadas e aceitam até mesmo horários inconvenientes para resolver os deveres mais árduos. Isso não é porque foi pedido por alguém, mas porque se mostrar útil sempre foi considerado algo positivo e seguro, bem mais do que ocupar espaço de outras formas.
Pode ser sim uma questão de generosidade, mas nesse caso está mais relacionado ao pensamento de "ser útil antes que alguém ache que você está atrapalhando". É uma forma de antecipar o problema.
É muito comum que pessoas muito fáceis na infância acabem entrando em amizades e relacionamentos onde são elas que precisam tomar a iniciativa, planejar e se preocupar com o outro. Trata-se de uma dinâmica confortável e normal no início, mas pode acabar sendo uma forma de deixar o outro acomodado.
Pesquisadores dizem que crianças que aprendem a reprimir suas próprias necessidades acabam se aproximando de relacionamentos que lhe pareçam familiares na vida adulta. Não é uma questão de ser atraído por problemas e exploração, mas simplesmente por ser algo que já entendem bem. Se o relacionamento exige muito deles e retribui de forma discreta, é considerado "normal".
Atitudes simples que as pessoas tomam quando percebem que o outro está precisando de cuidado são vistas como um "fardo" por quem cresceu sendo fácil. Se alguém traz uma sopa quando você está doente ou oferece para te ajudar quando vê que está atarefado, a resposta quase instantânea é: "Não precisava fazer isso" ou "pode deixar que eu faço, não se preocupa". Até mesmo elogios são difíceis de receber.
Para a piscologia, isso acontece porque essas pessoas cresceram aprendendo a ser autossuficientes. Por isso, receber cuidado acaba se tornando algo quase ameaçador, como se criasse uma dívida ou chamasse atenção para uma necessidade. Assim, o cuidado vira uma repulsa.
Pessoas que foram fáceis na infância tendem a responder que estão "bem" em qualquer situação. É algo automático, feito sem uma pausa. Isso acontece porque na verdade não sabem sequer identificar o que estão sentindo. Se a pessoa realmente quiser ser sincera, terá que pensar bem antes de responder algo simples, como um "como você está hoje?".
Isso tende a se acontecer com quem foi constantemente recompensado por apresentar calma e neutralidade emocional. Quando você é elogiada por ser uma criança descomplicada, acaba aprendendo a ser assim para sempre e o lado emocional fica de lado.
A criança fácil pede desculpas com muita rapidez, até mesmo por coisas que têm nada a ver com ela. Se alguém esbarra nela sem querer, é ela quem se desculpa, por exemplo. Pesquisadores dizem que o excesso de pedidos de desculpas tem relação com a percepção de que a sua própria presença e necessidades são inconvenientes para outras pessoas. A desculpa nem é necessariamente para o outro, mas sim um reflexo, uma forma de se antecipar a qualquer possível reclamação.
Quem cresceu se mostrando útil acha que a única maneira de conquistar seu espaço é assim. Por isso, utilidade e amor se misturam. Se a pessoa precisa de sua ajuda, é visto como uma grande conexão. E é assim que os relacionamentos onde essas pessoas se sentem necessárias são os que mais transmitem afeto.
O problema é que ser necessário e ser amado são coisas diferentes. Confundir isso tende a fazer com que essas pessoas se mantenham em relacionamentos que extraem muito delas, enquanto oferecem algo que parece afeto, mas funciona mais como dependência. Eles permanecem porque a necessidade parece ser a prova de algo.
"O que você precisa?". Essa pergunta simples é muito difícil de responder se você foi uma criança fácil e passou a vida inteira reduzindo suas necessidades a nada. Você se mostra tão bem que isso se tornou um reflexo. Você aprendeu tão cedo a não precisar de nada que, na vida adulta, realmente não sabe dizer qual é a resposta para essa pergunta.