A minissérie “Dele & Dela”, uma das estreias mais comentadas da Netflix, começa como um suspense policial clássico, mas termina como algo muito mais desconcertante! O que parecia ser apenas a busca por um assassino em uma pequena cidade da Geórgia se revela, episódio após episódio, uma história sobre violência invisível, culpa coletiva e até onde alguém é capaz de ir em nome do amor.
O impacto do final não vem apenas da identidade do criminoso, mas do que essa revelação diz sobre os personagens e sobre o próprio espectador...
A trama acompanha Anna Andrews (Tessa Thompson), uma jornalista que retorna à cidade natal para cobrir o assassinato de Rachel, uma mulher aparentemente comum. O detalhe inquietante é que Rachel fez parte do passado adolescente de Anna, um período marcado por humilhações, violência e silêncio.
À medida que novas mortes acontecem, fica claro que não se trata de crimes aleatórios. As vítimas - Rachel, Helen e Zoe - compartilham algo em comum: todas estiveram envolvidas em um episódio traumático vivido por Anna durante sua juventude, quando ela foi vítima de abuso sexual incentivado e encoberto pelas próprias colegas de escola.
A investigação policial, liderada por Jack Harper (Jon Bernthal), ex-marido de Anna, corre em paralelo a uma investigação emocional muito mais profunda: a reconstrução de memórias que a protagonista passou anos tentando apagar.
No meio do caos, a narrativa direciona o olhar do público para Lexy Jones, uma âncora de TV de sucesso que, aos poucos, revela ser Catherine Kelly, uma ex-colega marginalizada por aquele grupo de adolescentes.
A hipótese de vingança parece sólida: Catherine sofreu bullying, desapareceu misteriosamente e agora vive sob outra identidade. Provas surgem, seu marido é preso como cúmplice e o caso é oficialmente encerrado. A cidade respira aliviada. O público, também. Mas “Dele & Dela” nunca foi sobre soluções fáceis.
No último episódio, a série desmonta tudo o que o espectador acreditava saber. Um ano após os crimes, Anna encontra uma carta deixada por sua mãe, Alice e é ali que a história muda de eixo. Ela revela ser a verdadeira responsável por todos os assassinatos.
O motivo não é vingança pessoal nem prazer em matar, mas algo muito mais perturbador: um amor materno distorcido, alimentado por culpa, controle e proteção extrema. Alice descobre, por meio de antigas gravações, o abuso sofrido pela filha na adolescência e passa a enxergar aquelas mulheres como uma ameaça permanente à vida emocional de Anna.
Para executar o plano, ela finge sofrer de demência, usa o conhecimento íntimo da cidade e planta provas para incriminar Catherine, desviando completamente a investigação.
A revelação nunca chega à polícia. Alice não é presa. Anna, agora ciente de toda a verdade, faz uma escolha que divide o público: guardar o segredo da mãe.
O plano de Alice, de forma cruelmente eficaz, funciona. Anna retoma a carreira, se reconcilia com Jack, adota a filha de Zoe e descobre uma nova gravidez. A família se reconstrói sobre um crime que jamais será punido. A série encerra deixando claro que, às vezes, a verdade não liberta - ela apenas pesa.
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