São tempos sombrios para a política brasileira e não podemos negar. Em meio a declarações contra minorias, discursos cada vez mais agressivos e uma política que, muitas vezes, parece ter descoberto nas redes sociais uma fábrica de cortes e viralizações, mais uma polêmica daquelas nasceu nesta terça-feira (6). Desta vez, o alvo foi uma camiseta.
O ex-baterista e um dos primeiros integrantes do Angra, Marco Antunes, atualmente conhecido artisticamente como Marco Leão Sol, detonou nas redes sociais a deputada estadual eleita Eduarda Campopiano, do PL, depois que ela apareceu usando uma camiseta da banda. A foto havia sido publicada originalmente pelo perfil de Anderson Bonani, em abril, mas voltou a circular e chamou a atenção do músico.
“Tira essa camiseta, fascistinha de merd*, demônio precoce. Como cofundador e anjo brabo precoce, te declaro excomungada. E vá para o raio que a parta, psicopatinha de merd*. É cada coisa que a gente gostaria de ‘desver’”, disparou ele.
A publicação acabou apagada do Instagram. Depois, porém, Marco voltou ao assunto. Publicou uma imagem com a palavra “credo” e escreveu na legenda: “Entendedores entenderão”.
A publicação de Marco fazia referência a um suposto comentário atribuído ao guitarrista Kiko Loureiro, também integrante histórico do Angra. Prints começaram a circular nas redes sociais indicando que o músico teria escrito “credo” na publicação de Eduarda usando a camiseta da banda. Só que Kiko negou que tenha feito o comentário.
O guitarrista afirmou que só tomou conhecimento da história depois de ser informado de que seu nome estava envolvido e garantiu que nunca havia escrito aquilo. "Recebi a notícia mencionando que eu havia comentado nesse post e vim aqui descobrir do que se tratava. Eu nunca escrevi nenhum comentário aqui, eu nem sabia a existência dessa candidata até ontem. Comentário nunca existiu", alegou ele.
Aos 23 anos, Eduarda Campopiano conseguiu um feito gigantesco nas urnas: foi eleita deputada estadual mais votada de São Paulo em 2026, com 1.956.238 votos, a segunda maior votação da história do estado, segundo levantamento do g1. A jovem do PL já era vereadora de Praia Grande e ganhou projeção nacional principalmente pela atuação nas redes sociais e por um discurso conservador, alinhado ao bolsonarismo.
Mas, se depender do histórico recente da parlamentar, não foram apenas propostas que fizeram seu nome circular por aí.
Eduarda transformou o antifeminismo em uma de suas bandeiras políticas. E não é interpretação nossa, não! Ela própria se apresenta dessa maneira e já declarou que pretende fazer da disputa ideológica uma parte importante de sua atuação política.
O mais curioso é que, ao mesmo tempo em que se coloca contra o feminismo, Eduarda ocupa hoje um espaço político que mulheres brasileiras passaram décadas lutando para conquistar.
O Brasil só reconheceu oficialmente o direito das mulheres de votar e serem votadas em 1932, com o Código Eleitoral. O TSE registra que essa conquista veio depois de uma longa mobilização feminina pelo sufrágio e cita entre as pioneiras nomes como Bertha Lutz e outras mulheres que atuaram pela participação feminina na política.
Embora antifeminista, ela só pode disputar uma eleição, receber votos e ocupar uma cadeira no Legislativo porque mulheres antes dela lutaram para que o sexo deixasse de ser uma barreira à cidadania política.
As declarações de Eduarda sobre mulheres também chamam atenção diante de uma realidade que não cabe em vídeo de rede social. A deputada eleita, segundo O Globo, já afirmou acreditar que o feminicídio não “seja algo que exista” e se posiciona contra a criminalização específica da misoginia.
Enquanto isso, os dados contam outra história. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil registrou 1.568 feminicídios em 2025, o maior número desde que o crime passou a ser tipificado, em 2015. Foram 4,7% mais mortes do que no ano anterior e, desde a criação da lei, ao menos 13.703 mulheres foram assassinadas em feminicídios no país.
Outra fala de Eduarda que voltou a circular após sua eleição envolve os povos indígenas. Durante participação no RedCast, a então vereadora declarou: “Glória a Deus que colonizaram, glória a Deus que catequizaram as índias".
Na sequência, associou povos indígenas a práticas como canibalismo, sacrifícios e violência contra crianças, afirmando que a chegada dos colonizadores e da extrema direita teria interrompido esse tipo de comportamento.
A declaração provocou reação da artista e liderança indígena Katú Mirim, que registrou boletim de ocorrência acusando Campopiano de preconceito de raça ou cor. Só que existe um pequeno detalhe chamado história.
Não há como contar a colonização brasileira apenas como uma história de europeus que chegaram, catequizaram indígenas e “salvaram” populações originárias. A colonização também envolveu guerras, escravização, epidemias, expulsão de territórios, trabalho forçado e violência sistemática contra povos indígenas. E o processo provocou uma gigantesca catástrofe demográfica.
O Censo 2022 do IBGE identificou 1.694.836 indígenas no país e 391 etnias, povos ou grupos indígenas. O próprio instituto ressalta que mudanças metodológicas e a ampliação da identificação contribuíram para o aumento em relação ao Censo de 2010. São centenas de povos vivos, com línguas, culturas, territórios, identidades e histórias próprias.