O problema de falar sobre filósofos que viveram há dois milênios é que você pode encontrar citações atribuídas a eles, mas que, na verdade, não são deles.
Ou citações que parecem se encaixar no pensamento deles, mas que eles não disseram. O mais comum é que acabemos recebendo uma citação apócrifa, uma frase de autenticidade duvidosa, como acontece com “a pobreza não vem da diminuição das riquezas, mas da multiplicação dos desejos”, atribuída a Platão.
Ela não aparece literalmente em nenhum texto platônico preservado e chegou até nós como uma citação de autoajuda pouco confiável. O curioso é que a ideia central dessa frase é, de fato, uma das mais recorrentes em sua obra. E sua visão sobre os desejos é bem mais sofisticada e muito mais reflexiva.
Em seu livro “Górgias”, Platão descreve um diálogo entre Sócrates e Cálicles. O pensador sofista, Cálicles, defende que “quem quiser viver bem deve deixar que seus desejos atinjam a maior intensidade e não reprimi-los”.
Sócrates responde que permitir que os desejos atinjam a máxima intensidade e satisfazê-los é uma vida terrível, “semelhante à de um barril furado que não consegue conter nada, obrigando seu dono a enchê-lo dia e noite, sem cessar”, porque a alma que vive dominada por desejos sem limites é como o barril furado.
Não importa o quanto você coloque dentro, pois ela sempre estará vazia. Surpresa: a psicologia deu razão a Platão e a Sócrates.
Em 1971, os psicólogos Philip Brickman e Donald Campbell descreveram a adaptação hedônica. Trata-se da tendência humana de voltar ao mesmo nível de felicidade após alcançar algo que desejávamos. Uma casa maior. Um carro mais veloz.
Um celular melhor. Conseguimos, nos adaptamos e surge um novo desejo. O ciclo recomeça até percebermos que nunca estamos totalmente satisfeitos, pois sempre há um novo desejo que substitui o já alcançado. Isso é, em termos psicológicos, o barril furado de Platão.
E também é desgastante, na verdade, e resultado de vivermos em uma sociedade na qual, como afirmava o filósofo Zygmunt Bauman, todas as ideias de felicidade sempre acabam em uma loja.
Sócrates questiona Cálicles novamente quando lhe diz que “se uma pessoa tem sarna e se coça, e pode se coçar sem limites, será que viverá feliz, passando a vida inteira se coçando? [...] Não seria essa vida terrível, vergonhosa e infeliz? Ou você ousaria afirmar que esses homens são felizes, se possuírem em abundância o que desejam?”. Esses desejos que nos consomem não nos trarão felicidade, mas sim o contrário.
Em “A República”, Platão explica que existem desejos necessários, ligados à sobrevivência e à saúde, e desejos desnecessários, voltados para o status ou a novidade. Os primeiros devem ser satisfeitos (como a fome), enquanto os segundos “não têm fim” (como querer um celular melhor a cada ano), pois cada satisfação abre as portas para um novo desejo, ainda mais exigente que o anterior.
“Se os desejos dominam a razão, eles nos impedem de ser felizes”, poderíamos resumir de forma simples, seguindo a linha do pensamento platônico. De fato, o psicólogo Rafael Santandreu já afirmava no livro “A arte de não amargar a vida” que a infelicidade surge das necessidades, entendendo-as como os desejos desnecessários de que fala Platão.
A alma que se deixa governar por esses desejos desnecessários é, segundo Platão, uma alma doente e infeliz. “Cheios de medos e desejos de todo tipo, não encontraremos na vida nem um único momento de autêntica liberdade nem de verdadeira amizade”, escrevia ele.
Platão não propõe suprimir os desejos, mas ajustá-los à razão. Assim, essa riqueza a que se refere a frase apócrifa do início é a nossa capacidade de encontrar a suficiência. Quem deseja sem limites será pobre mesmo com muito, e quem deseja dentro dos limites da razão poderá ser feliz com pouco.