A lição que Tolstói compreendeu tarde: ‘O segredo da felicidade não é fazer sempre o que se quer, mas querer sempre o que se faz’
Publicado em 24 de junho de 2026 às 07:35
A citação, atribuída ao escritor e filósofo russo, questiona tudo o que nos disseram sobre a felicidade
A lição que Tolstói compreendeu tarde: ‘O segredo da felicidade não é fazer sempre o que se quer, mas querer sempre o que se faz’ O escritor russo é um dos autores mais influentes de todos os tempos, mas tem várias citações apócrifas associadas a ele A frase atribúida ao filósofo é, de certa forma, irônica, já que o próprio autor se sentiu infeliz durante parte da sua vida, mesmo tendo alcançado fama e prestígio A ideia de que a felicidade não vem necessariamente de todos os desejos que conquistamos, mas sim de encontrar significado no caminho escolhido é importante e ressoa até hoje Algumas trajetórias públicam podem dialogar diretamente com a citação, mas a frase inspira diferentes interpretações e questionamentos em cada um

A frase aparece a cada poucos meses no Instagram, acompanhada de uma fotografia em preto e branco de Lev Tolstói olhando para o horizonte com uma expressão transcendental.

“O segredo da felicidade não é fazer sempre o que se quer, mas querer sempre o que se faz”.

Faz sentido porque soa a Tolstói. Parece coisa de Tolstói, mas há um pequeno problema: não há provas de que o escritor e filósofo russo tenha dito isso alguma vez. Não aparece nem em seus romances, nem em seus diários, nem em sua correspondência...

Portanto, considera-se uma citação apócrifa, uma daquelas frases que, em uma espécie de efeito Mandela, acabam sendo atribuídas a alguma figura histórica para lhes dar mais peso ou prestígio e para que cheguem a mais pessoas.

A citação parece ter relação com um antigo provérbio americano: “O segredo da vida não é fazer o que você gosta, mas gostar do que você faz”. E tem, além disso, uma enorme semelhança com outra dessas reflexões atribuídas a Jean-Paul Sartre: “A felicidade não é fazer o que se quer, mas querer o que se faz”.

No entanto, embora Tolstói provavelmente nunca tenha proferido essas palavras, é difícil encontrar alguém cuja vida se identifique melhor com elas. Pois, se há algo que caracteriza a biografia do escritor russo, é justamente a tensão permanente entre o que ele desejava fazer, o que acreditava que devia fazer e o que acabou fazendo. Mas, afinal, não é um pouco assim a vida de todos nós?

O homem que tinha tudo e continuava se sentindo perdido

Quando pensamos em Lev Tolstói, costumamos nos concentrar em sua faceta de gênio literário. O autor de “Guerra e Paz” e criador de “Anna Karênina”, que foi um dos escritores mais influentes de todos os tempos em todo o mundo. O que costumamos esquecer é que, durante grande parte de sua vida, ele foi profundamente infeliz.

Tolstói havia alcançado o sucesso, a fama, o reconhecimento intelectual e uma posição econômica privilegiada. Havia conquistado praticamente tudo o que costumamos identificar como metas de uma vida bem-sucedida. E, mesmo assim, por volta dos cinquenta anos, passou por uma crise existencial devastadora.

Em sua obra “Confissão”, escrita em 1882, ele relata como chegou a se perguntar para que servia viver. Nada do que havia conquistado parecia lhe dar uma resposta satisfatória. O sucesso não bastava, nem o dinheiro. Nem mesmo a literatura, que havia sido o grande projeto de sua existência.

Frase dialoga com verso de música moderna

Tolstói descobriu algo que muitos de nós continuamos descobrindo até hoje: que alcançar aquilo que desejávamos não garante nem que nos sintamos plenos e realizados, nem que saibamos o que fazer depois. Encontramos outro exemplo mais moderno em um verso da música de 2025 “Teenage Symphonies to God”, do rapper sueco Yung Lean:

“Quando você consegue o que quer, é realmente o que você quer? Continua sendo o que você sonhava ou algo que vai te atormentar?”

Vivemos convencidos de que a felicidade está escondida por trás de uma conquista específica: uma promoção, uma mudança de casa, um parceiro, um saldo na conta bancária, um emprego diferente... Mas, às vezes, abrimos essa porta apenas para constatar que continuamos sendo os mesmos de antes.

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Durante anos, nos venderam uma ideia bastante sedutora: para sermos felizes, devemos nos dedicar exclusivamente ao que nos apaixona. A frase parece lógica até que as contas chegam. Infelizmente, a vida adulta raramente se parece com o que sonhamos. Se fosse um painel no Pinterest, seria feito de obrigações, horários, abnegações, compromissos familiares e responsabilidades que nem sempre coincidem com nossos desejos. E é aí que surge o conflito.

O que acontece quando aquilo que valorizamos entra em conflito com o que precisamos fazer para sobreviver? O que acontece quando o trabalho que paga o aluguel não coincide exatamente com a vocação que imaginávamos? O que fazemos quando os ideais e a realidade deixam de andar em paralelo? É por isso que essa citação continua ressoando tanto.

Não porque nos convide a nos resignarmos, mas porque levanta uma questão mais difícil do que perseguir nossos sonhos: será que podemos encontrar sentido naquilo que já faz parte da nossa vida? Há uma enorme diferença entre se conformar e se comprometer. Enquanto se contentar é abandonar os próprios valores, comprometer-se é encontrar uma maneira de vivê-los mesmo quando as circunstâncias não são perfeitas.

O desafio de não se perder

Existe uma forma silenciosa de infelicidade que quase não aparece nos discursos motivacionais. Não é o fracasso, é o desvio. Aquele momento em que a pessoa começa a tomar decisões apenas por inércia. Quando os dias se transformam em uma sucessão de tarefas. Quando as obrigações ocupam tanto espaço que não sobra mais lugar para se perguntar em quem a pessoa está se transformando.

Às vezes, não nos sentimos mal por trabalharmos demais ou por termos responsabilidades demais. Nos sentimos mal porque deixamos de nos reconhecer nelas. A felicidade, entendida dessa forma, não consistiria em fazer exatamente o que queremos a cada minuto do dia. Consistiria, antes, em preservar algum fio que nos conecte aos nossos princípios, às nossas curiosidades e ao que realmente consideramos importante.

Não se trata de amar cada aspecto da nossa vida, mas sim de evitar construir uma vida que contradiga completamente quem somos.

O que Tolstói pode nos ensinar

O grande paradoxo é que Tolstói passou décadas tentando se reconciliar com essa mesma questão. Ele buscou respostas na literatura, na religião, na filosofia, no trabalho físico, na vida familiar e no contato com os camponeses russos. Nunca encontrou uma solução definitiva, provavelmente porque ela não existe.

Mas ele chegou a uma conclusão que continua surpreendentemente atual: uma vida com sentido depende menos das circunstâncias externas do que costumamos acreditar. Não podemos controlar todos os trabalhos que teremos de realizar, todas as obrigações que surgirão nem todas as renúncias que teremos de assumir. O que podemos decidir é qual relação mantemos com elas.

É por isso que a frase continua circulando mais de um século depois, embora talvez ninguém saiba realmente de quem ela partiu. Pois ela fala de uma aspiração tão profundamente humana quanto a de não viver permanentemente esperando que nossa verdadeira vida comece. A de aprender a viver a vida que já temos da melhor maneira possível.

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Por Paula Alves | Colaboradora
Jornalista apaixonada por cinema, streaming e entretenimento. Sempre em busca de boas histórias para contar.
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