"Seja você mesmo". Você já viu essa frase em canecas, moletons e mensagens motivacionais que nos foram vendidas milhares de vezes.
Mas no simples fato de sermos nós mesmos há uma interpretação de um papel: o de quem acreditamos que somos. “A mentira que nos empurraram a vida toda, de que se você for você mesmo vai ser mais feliz, é, na minha opinião, uma das piores”, afirmou Adrián Chico em sua conta no TikTok.
A reflexão do psicólogo fica na fronteira entre a filosofia e a psicologia, porque, quando tentamos ser nós mesmos, será que o simples fato de tentar já transforma isso em uma falácia?
Segundo Chico, sim. “No momento em que você começa a se perguntar ‘quem sou eu’ e ‘o que significa ser eu’ para poder ser você mesmo com os outros, você está se fechando em uma caixinha e reduzindo sua personalidade a alguns rótulos”, afirma.
Quando você faz isso, você se obriga a se descobrir para interpretar o papel de quem você é e, por isso, a frase “seja você mesmo”, em vez de nos libertar, se torna uma limitação, pois nos leva a agir e a fixar uma identidade rígida e irreal.
O argumento é simples: quando definimos nossa identidade, o que fazemos é restringi-la e manter uma visão fixa de nós mesmos. Mas a identidade é fluida e mutável. Um dia podemos ser gentis e, em outro, mais ariscos, mas, em ambos os dias, continuamos sendo nós mesmos.
“O que importa é ser. No momento em que você acrescenta um ‘eu mesmo’, está condicionando um eu que criou ao longo de toda a sua vida com base na sua personalidade, experiências e expectativas”, afirma. Podemos ser autênticos, mas isso não significa que tenhamos que tentar ser autênticos, pois, na própria tentativa, perdemos essa autenticidade.
É o que explicava o filósofo existencialista Martin Heidegger em “O Ser e o Tempo”, onde fala do Dasein e analisa a diferença entre viver de forma autêntica (Eigentlichkeit), assumindo nossa própria existência, sua finitude e sua liberdade radical, e viver preso ao que “se faz” (das Man), seguindo normas e expectativas sociais sem questioná-las.
Para Chico, a razão pela qual é impossível pretender ser “eu mesmo” — entendendo isso como uma perspectiva rígida da nossa personalidade e da nossa pessoa — é que nossa identidade não é (ou não deveria ser) rígida.
“Um dia, eu posso ser a pessoa mais encantadora do mundo, mas também faz parte de ser eu mesmo o fato de, em outro dia, estar mal-humorado porque estou de mau humor”, afirma ele, acrescentando que essa variabilidade faz parte da natureza humana.
O verdadeiro desafio não é “ser você mesmo” como um objetivo consciente, mas sim ser, da maneira mais simples e direta possível. Sem tentar nos encaixar na própria perspectiva do nosso eu.
E, para tranquilizar todos aqueles que não têm clareza sobre quem somos, ele garante que “não há problema algum em não saber quem você é, sendo você mesmo”.
Aceitar que nossa identidade não está totalmente definida é assumir algo que tanto a filosofia quanto a psicologia vêm afirmando há tempo: que somos um projeto inacabado que se molda e muda ao longo de toda a vida.
O filósofo Jean-Paul Sartre dizia em “O Ser e o Nada” que “a existência precede a essência”, ou seja, o ser humano primeiro existe e, depois, define a si mesmo por meio de suas ações e decisões.
A psicologia do eu também nos lembra que o que acreditamos ser nasce do que sentimos, do que os outros nos refletem e de nossas experiências.
Quando deixamos de imaginar que o “eu” é uma estrutura rígida e aceitamos que, na verdade, é um processo vivo, surge uma liberdade diferente, na qual nos permitimos falhar e tentar novamente, redefinir-nos sem sentir que estamos nos traindo.
“No momento em que você aceita que não tem a menor ideia de quem é a cada instante, é aí que consegue observar essa parte e o que resta — isso sim é você. Em paz, sem exigências e sem a necessidade de desempenhar nenhum papel”, resumia Adrián Chico.
Talvez, em vez de nos esforçarmos tanto para sermos nós mesmos, devêssemos simplesmente ser. Em vez de buscar uma identidade definitiva e tentar habitá-la, podemos investigar com curiosidade a possibilidade de ser, pois ali tudo é possível.