Nos anos que sucederam a pandemia, o Brasil registrou um aumento exponencial de leilões de imóveis. Só em 2024, o número cresceu 86% em relação ao ano anterior, segundo a plataforma Superbid Exchange.
Fora da bolha imobiliária, o assunto ganhou destaque na editoria de celebridades após o anúncio e a suspensão do leilão da mansão onde o ex-casal Ana Hickmann e Alexandre Correa residia em Itu, no interior de São Paulo.
Para entrar mais a fundo neste universo, o Purepeople conversou com o leiloeiro Eduardo Consentino, escolhido pelo juiz Guilherme Madeira Dezem, do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (TJ-SP), para realizar o leilão da mansão cinematográfica de Hickmann.
Fundador da Biasi Leilões, Eduardo trabalha no ramo desde os 16 anos e já atuou em processos de arrematação que ganharam notoriedade na mídia, como o do antigo prédio da Editora Abril, leiloado por R$ 118 milhões em 2021.
“A gente vende ativos imobiliários dos principais bancos do país. Por dação de pagamento ou falta de pagamento do financiamento, o imóvel é retomado. E o banco vai definir um preço, com descontos que podem chegar a 60%, e joga isso no leilão para a gente. A ideia é trazer o recurso daquele imóvel de volta ao banco, porque o banco empresta o dinheiro e administra contas, não imóveis. Para ser mais transparente ao mercado, já que os bancos têm capital aberto, o imóvel vai para o leilão”, explica Eduardo.
Os leilões podem ser judiciais, quando ocorre para quitar dívidas em processo, ou extrajudiciais, geralmente, quando um banco retoma um imóvel por falta de pagamento do financiamento.
Os interessados precisam se cadastrar, fornecendo documentos básicos, como RG e comprovante de residência. Para se habilitar, é preciso confirmar a leitura do edital. Nele constam informações essenciais sobre o processo, como possíveis dívidas associadas ao imóvel, se ele está ocupado, prazos de pagamento e custos extras, como comissão do leiloeiro e taxas de cartório.
Eduardo admite a sondagem de muitos curiosos, especialmente, em casos de grande repercussão pública, como o de Ana. Mas atenção: “Qualquer pessoa que se habilite em um leilão, dá um lance e não paga, é considerado fraude no Artigo 171 do Código Penal e pode inclusive ser preso, além de todas as multas. É muito sério. Por isso, a gente pede que leia bem a descrição do imóvel e leia bem o edital.”
A premissa de que comprar em leilão é mais barato não é mero estereótipo. Por conta dos preços mais baixos, este segmento atrai cada vez mais investidores. “Virou um trabalho mesmo. Tem gente que saiu de empresas corporativas e trabalha o dia inteiro visitando imóveis, lendo editais, visitando sites de leiloeiros… Porque ganham dinheiro comprando e vendendo imóveis de leilão”, detalha Eduardo.
Atualmente, o leilão está cada vez mais voltado ao ambiente digital - um processo que teve início na pandemia e se firmou mesmo com a retomada dos eventos. Embora encurte distâncias e permita que um possível comprador manifeste interesse de qualquer local do país, Eduardo admite a falta de conduzir vendas presencialmente.
“Era tão emocionante fazer o leilão presencial. Tinha 500 pessoas na minha frente, você via famílias comprando um sonho. Tem investidores, mas também têm pessoas que compram para morar. Presencialmente, você vê a emoção, o leiloeiro chora junto e até pede para bater palma”.
Um paraíso de 6.100 m² de terreno e 1.600 m² de área construída, com oito suítes, camarim, closet blindado, SPA, cinema, balada, elevador com vista panorâmica e uma sala tão gigantesca que virou meme nas redes sociais. Parece a receita perfeita para atrair compradores de imóveis de alto luxo, mas está no centro de um dos imbróglios judiciais mais comentados da década entre as celebridades.
Segundo Eduardo, a mansão foi a leilão devido a uma dívida de Alexandre. A imprensa reporta que valor já ultrapassa R$ 900 mil. Com a primeira data agendada para o próximo domingo (15), o processo foi suspenso no mês passado, após a defesa da apresentadora entrar com um recurso conhecido como embargo de terceiros. Trata-se de uma ação de alguém que não faz parte do processo oficialmente, para proteger um bem seu que foi atingido por uma decisão da Justiça.
Ana alegou que não teria sido intimada sobre sua penhora, já que também é proprietária do imóvel. Além disso, a mansão está em alienação fiduciária ao Banco Daycoval, ou seja, está em nome do banco como garantia de uma dívida até que ela seja totalmente quitada. O juiz Guilherme Madeira Dezem, então, optou pela suspensão do leilão.
Com lance inicial de R$ 35 milhões, Eduardo explica que a parte que cabe a Ana, ou seja, os 50% que lhe são de direito, seriam preservados na venda. Segundo o leiloeiro, para não desvalorizar o montante da apresentadora, o imóvel iria para segunda praça, caso não fosse vendido na primeira data, com o valor mínimo de 75% da avaliação.
“Em leilão judicial, a gente geralmente leiloa com 50% [na segunda praça]. Mas para preservar o valor da Ana, é 75% no edital. Isso ninguém falou. Se ela vendesse por uma imobiliária comum, que não fosse por um problema judicial, ela ficaria com 50% e o Alexandre com 50%. No edital, isso estava muito preservado. Teoricamente, o que seria vendido era a parte do Alexandre”, completa Eduardo, que exemplifica: “Se a casa estivesse avaliada em R$ 40 milhões, mas fosse vendida a R$ 25 milhões, R$ 20 milhões seriam da Ana e R$ 5 milhões iriam para pagar a dívida do Alexandre.”
De acordo com informações reportadas pela colunista Fábia Oliveira, do portal Metrópoles, ao pedir a suspensão do leilão, a defesa de Ana apontou que o leiloeiro teria “adotado posturas precipitadas e irregulares”.
Eduardo rebate esta afirmação e destaca que a suspensão não aconteceu por sua atuação e, sim, sob a alegação de que a dívida não pertence a Ana, apenas ao ex-marido. “Eu não sei o que ela quis dizer com precipitado, sendo que eu segui a lei corretamente e protocolei tudo no processo. Justamente, por ser um caso que está bombando na mídia, para não dizerem que eu fiz algo de errado, protocolei tudo”, justifica.
Até o fechamento da matéria, ainda não existia previsão da retomada do leilão. Questionado se tamanha confusão judicial entre o ex-casal poderia afastar interessados, Eduardo pondera: “O que eu vou te falar é na minha experiência de leiloeiro. Vai ter gente que vai se atrair para estar na mídia porque comprou a mansão de Ana Hickmann. Isso repercute.”