Entre os inúmeros doramas que a Coreia do Sul nos entregou nos últimos anos, poucos foram tão complexos e realistas quanto 'Vinte e Cinco, Vinte e Um' - que aos bilíngues atende por 'Twenty Five, Twenty One'. Lançado em 2022, o k-drama começa com um plot que muitos interpretaram de forma equivocada: o de que seria um mero romance entre uma adolescente sonhadora e um jovem adulto que teve seus sonhos quebrados. Mas essa é só a ponta do iceberg.
Se me permite o aviso, os spoilers começam a partir daqui... caso queira lê-los.
Enquanto muitos se apaixonaram perdidamente por seus personagens e pela delicadeza da trama de 'Vinte e Cinco, Vinte e Um', outros saíram decepcionados e sentindo que faltou o "final feliz". Mas talvez o que falte, na verdade, seja a nossa disposição de aceitar que a vida real não cabe nos moldes de contos de fadas que são pintados em 90% das histórias lançadas no streaming.
'Vinte e Cinco, Vinte e Um' não é um dorama que está aqui para te agradar, embora tenha uma história impecável do início ao fim. Ele está aqui para te lembrar, te provocar e tocar em memórias que você achava que tinha esquecido.
A estrutura do dorama é muito interessante. 'Vinte e Cinto, Vinte e Um' começa no presente, quando a filha de Na Hee-do (Kim Tae-ri) encontra um diário antigo da mãe e lê suas memórias da juventude vivida durante a crise financeira dos anos 1990, época que marcou a Coreia do Sul e foi uma das mais desafiadoras da história recente do país.
A história, então, retrocede para mostrar Hee-do aos 18 anos: uma jovem explosiva, intensa, apaixonada por esgrima e determinada a vencer no esporte, mesmo em meio ao caos instaurado no país. Sua vida vida desaba quando o clube de esgrima é removido na escola e ela passa a enfrentar problemas com a mãe, uma mulher fria e distante.
É aí que ela conhece Baek Yi-jin (Nam Joo-hyuk), um jovem de 22 anos que já teve tudo e agora não tem nada. Ele era de uma família da elite que faliu devido à crise e começou a ter que fazer o seu próprio sustento. Então trabalha em locadoras, entrega jornais e tenta, a todo custo, recuperar a dignidade que só os ricos tinham na Coreia dos anos 90.
Entre eles nasce algo que vai além da atração: uma admiração mútua, uma amizade profunda e, aos poucos, um amor inevitável. Mas este não é um amor de novela, aquele fácil e que suporta tudo. Os protagonistas vivem um amor moldado pelo tempo, pela distância, pela vida que insiste em seguir em frente, e é isso que o torna tão verdadeiro.
Ao longo dos episódios de 'Vinte e Cinco, Vinte e Um', a história não se prende ao colegial e avança ao longo dos anos seguintes do casal. Então, vemos o romance entre Hee-do e Yi-jin se desenrolar com uma sinceridade tremenda. Eles riem, brigam, se apoiam, se desencontram e tentam fazer essa paixão dar certo.
Yi-jin se torna jornalista e começa a cobrir eventos importantes, incluindo os Jogos Olímpicos. Hee-do, por sua vez, realiza seu grande sonho e se consagra como campeã de esgrima. Mas a vida adulta chega... e como sabemos, ela não perdoa nem mesmo os corações mais bem-intencionados.
Com Yi-jin cada vez mais ausente pelo trabalho, a relação começa a ruir. As ligações viram desencontros, as mensagens não são respondidas... o tempo que antes os unia, agora separa. E então vem a conversa decisiva: eles se amam, mas não conseguem mais se manter juntos. Não por falta de sentimento, mas porque o amor, às vezes, não é suficiente para vencer a realidade.
O final do dorama não foi uma surpresa para mim, bem como para outros telespectadores, mas ainda assim dói. Eles terminam e nunca mais voltam. E a vida segue com Hee-do se casando com outro homem [que nem chega a aparecer]. A filha leva o sobrenome Kim, e não Baek, como ela sonhava com o seu grande amor. Enquanto isso, Yi-jin segue sua vida, e a história entre eles permanece na memória.
Porque 'Vinte e Cinco, Vinte e Um' entende e aborda algo que muitos roteiros de doramas românticos ignoram: ele não se prende em fazer os protagonistas se reconciliarem nos últimos minutos, mas aborda o fato de que valor de uma história é em como ela termina, mas no que ela nos transforma.
E isso fica claro quando a filha de Hee-do, ao terminar de ler o diário, diz: "O que mais me tocou não foi a história de amor. Foi o esforço da minha mãe". E a série é sobre isso. Sobre o esforço de seguir, de tentar, de amar com tudo o que se tem, mesmo sabendo que pode não durar. Sobre a coragem de ser jovem num mundo que insiste em dizer que você não pode sonhar. Sobre a beleza de viver algo que, embora tenha fim, te marca para sempre.
A direção de Jung Ji-hyun é um espetáculo à parte. As transições visuais, como o apito da esgrima se fundindo com o som de um monitor cardíaco, são a mais pura arte. Quase nada é óbvio em 'Vinte e Cinco, Vinte e Um', e tudo é dito com delicadeza. A ambientação dos anos 90 é nostálgica: pagers, salas de bate-papo, walkmans e orelhões criam um cenário que nos leva a uma máquina do tempo feliz.
E não dá para negar que o elenco brilha por si só. Kim Tae-ri entrega uma Hee-do com camadas: por vezes irritante, por vezes apaixonante, mas real. Nam Joo-hyuk faz de Yi-jin um personagem memorável, carregando nos olhos toda a tristeza de quem viu os sonhos virarem pó.
Os coadjuvantes também têm seu mérito: a idol de K-pop Bona, o ator Choi Hyun-wook, queridinho de 'Classe dos Heróis Fracos', e Lee Ju-myoung completam o quinteto principal com glória e muito talento, sem nenhuma ressalva.
Muitos doramas preferem encerrar com casamentos, filhos e promessas eternas. Mas 'Vinte e Cinco, Vinte e Um' vai contra o comodismo ao escolher terminar com um adeus ao invés de beijos, abraços e juras de amor. Isso pode ser frustrante para muitas pessoas, mas acaba sendo um final coerente para o k-drama.
A conversa final entre Yi-jin e Hee-do entrega uma despedida melancólica, mas madura e serena que deixou meus olhos marejados. Em seu último contato, eles reconhecem o que viveram, agradecem um ao outro… e seguem rumo ao desconhecido, rumo a uma vida nova que nem têm certeza se serão verdadeiramente felizes.
Não é sobre o fim do amor. É sobre o fim de uma fase da vida em que aquele amor fazia sentido. E isso, meus amigos, é profundamente humano.
Se você já amou alguém com todo o seu coração e depois seguiu em frente, 'Vinte e Cinco, Vinte e Um' vai tocar seus sentimentos mais íntimos. Se você já olhou para trás e percebeu que viveu algo enorme com alguém que hoje não faz mais parte da sua vida, esse dorama é um retrato de sua própria história.
'Vinte e Cinco, Vinte e Um' é sobre a juventude. Sobre aqueles amores que marcam nosso profundo. É uma história sobre a coragem de sonhar mesmo quando tudo está desabando, e de como o amor nunca é tão perfeito como gostaríamos, e vida é uma caixinha de surpresas.
Muitas pessoas reclamam do final deste dorama... mas talvez seja porque ele não entrega o que a gente quer, e sim o que a gente precisa.