A psicologia tem observado um fenômeno curioso: muitas crianças que cresceram nas décadas de 1960 e 70 desenvolveram um tipo de resiliência emocional que, sem intenção, parte da criação moderna acabou reduzindo nas gerações seguintes.
Não se trata de romantizar o passado, mas de analisar como determinados contextos favoreceram habilidades socioemocionais fundamentais.
Pense em alguém como Gloria Pires, nascida em 1963, que construiu uma carreira marcada por consistência, disciplina e força emocional. Embora talento envolva múltiplos fatores, o contexto geracional ajuda a entender como experiências de autonomia e enfrentamento precoce moldaram adultos mais autoconfiantes.
Uma pesquisa publicada no PMC, realizada com médicos e enfermeiros de pronto-socorro, identificou que crianças expostas a brincadeiras arriscadas e desafiadoras desenvolvem maior tolerância ao sofrimento e melhor regulação emocional.
Ao subir em árvores, cair da bicicleta ou negociar regras em jogos de rua, elas aprendem a lidar com frustrações, controlar o medo e resolver conflitos. São competências que não se ensinam em palestras: são construídas na prática.
Nas décadas de 60 e 70, esse tipo de vivência era comum. Perder um jogo no bairro significava lidar com a frustração sem que um adulto interviesse. O tédio era resolvido com imaginação, não com telas.
Já a partir dos anos 80, houve uma redução progressiva do tempo livre infantil. Hoje, muitas crianças têm agendas preenchidas do amanhecer ao anoitecer, entre atividades estruturadas, reforço escolar e dispositivos eletrônicos. Sobra pouco espaço para o ócio criativo, aquele terreno fértil onde nasce a autonomia.
O psicólogo Peter Gray, pesquisador do Boston College, argumenta que a diminuição do brincar livre desde os anos 60 impactou a capacidade das crianças de lidar com os problemas.
Antes, desentendimentos na rua eram resolvidos entre elas mesmas. Agora, a intervenção adulta é quase imediata. Ainda que motivada por proteção, essa postura pode transmitir a mensagem implícita: “Você não consegue lidar com isso sozinho”.
Um estudo da Associação Americana de Psicologia reforça esse ponto ao indicar que a parentalidade excessivamente controladora prejudica a regulação emocional e comportamental. Crianças com pais superprotetores apresentaram mais dificuldades acadêmicas e sociais do que aquelas com maior margem de autonomia.
A mensagem central não é abandonar os filhos à própria sorte, mas resistir ao impulso de remover todos os obstáculos do caminho.
Recuperar parte desse espírito não exige voltar no tempo: pode significar permitir que a criança vá a pé até a casa de um amigo, preservar tempo livre após a escola ou observar uma discussão entre irmãos antes de intervir.
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