A chegada da terceira e última temporada de 'Round 6' faz perceber uma ligação um tanto quanto óbvia, porém curiosa com a novela 'Vale Tudo'. Não e à toa que a trama assinada por Manuela Dias esteja passando bem no momento do fenômeno coreano.
À primeira vista, pode parecer estranho comparar as duas produções, mas há uma ligação: o desejo escancarado de riqueza, de ascensão social e da falta de escrúpulos, onde parece que, literalmente, vale tudo.
Em 'Round 6', centenas de endividados aceitam participar de um jogo mortal em troca de um prêmio bilionário. A série questiona até onde uma pessoa vai para mudar de vida, num sistema que alimenta desigualdades e cobra um preço altíssimo pela ambição. Cada decisão dos personagens revela até que ponto eles estão dispostos a sacrificar a própria humanidade.
Em 'Vale Tudo', personagens como Maria de Fátima, César, Raquel e Odete Roitman caminham pela vertente, a diferença é que as duas primeiras pessoas são os jogadores 'do mal', Raquel incorpora a concorrente honesta, enquanto Odete é a Front Woman, ou seja, no topo da cadeia alimentar, apenas trocando as peças do tabuleiro.
Pode-se dizer que Raquel é Seong Gi-hun (Lee Jung-jae), menos sarcástico, obviamente, mas que prima pela ética. E isso ficará evidente nos capítulos finais da novela, quando ela fará de tudo para salvar o bebê que Maria de Fátima terá com César.
A vilãzinha chegara ao ponto de vender o próprio filho; Raquel, por sua vez, não hesitará salvar o neto em meio a uma luta verbal ceia de ameaças aos futuros pais adotivos do menino.
Alguma coincidência com os episódios finais de 'Round 6' em que Seong Gi-hun defende com unhas e dentes o bebê de Jun-hee (Jo Yu-ri) contra uma cúpula de masoquistas, inclusive o próprio pai do recém-nascido?
Enquanto 'Round 6' usa a violência gráfica para impactar, 'Vale Tudo' utiliza a ironia e o melodrama para expor a hipocrisia social. As duas obras, cada uma ao seu estilo, fazem o público se perguntar: até onde você iria por dinheiro?
Esta reflexão se deve mais à 'Vale Tudo' de 1988 do que o remake de 2025. O texto afinado e cruel de Gilberto Braga, Leonor Basséres e Aguinaldo Silva mexia com o ego do brasileiro. Manuela é mais sutil, embora ouse em algumas situações.
No fim, tanto a série coreana quanto a novela brasileira mostram que a maior tragédia não é perder tudo, mas perder a própria essência em nome de vencer.