Uma mãe desesperada para salvar a filha, uma promessa de ajuda espiritual, uma família cercada por obras de arte milionárias e um golpe devastador. A premissa parece história de novela das nove, não é? Mas espelha um dos casos policiais mais chocantes e dramáticos do Rio de Janeiro nos últimos anos!
Foi exatamente essa semelhança que fez o público conectar imediatamente os pontos entre "Dom de Iludir", nova série da Netflix, e a história real vivida pela idosa Geneviève Boghici e sua filha, Sabine Coll Boghici.
A nova aposta do streaming chegou ao catálogo em dez episódios trazendo Marieta Severo na pele de Lúcia Rossetti, uma colecionadora de arte carioca que tenta a todo custo encontrar a cura para uma doença misteriosa da filha, Maíra, papel de Alice Wegmann.
Sem respostas na medicina tradicional, Lúcia recorre aos serviços de Irina, uma terapeuta espiritual vivida por Nanda Costta. A aproximação entre as duas famílias acaba dando início a uma complexa teia de manipulação, segredos e uma grande fraude patrimonial.
Apesar de a sinopse oficial da Netflix descrever a obra como um melodrama ficcional sobre amor, controle, ressentimento e culpa, a plataforma de streaming faz questão de ressaltar que não confirma qualquer inspiração direta no caso Boghici, assim como nega que as personagens tenham sido criadas para representar pessoas reais envolvidas naquela investigação.
Toda a discussão sobre o assunto começou a ganhar força mesmo antes da estreia do título. As primeiras comparações partiram de uma reportagem assinada pelo jornalista João Arruda e publicada no portal Tempo Real RJ, em 26 de setembro.
No texto, Arruda traçou paralelos diretos entre o universo da ficção e a vida real, apontando que a personagem Lúcia Rossetti lembraria Geneviève Boghici, a jovem Maíra guardaria semelhanças com Sabine e a terapeuta Irina seria o reflexo de Rosa Stanesco Nicolau, conhecida como a "Mãe Valéria de Oxóssi".
Com a chegada da série ao catálogo, a repercussão tomou conta das redes sociais. No X (antigo Twitter), alguns usuários também apontaram certas semelhanças.
"É disso que o povo gosta. Segue muito o que aconteceu na vida real onde essa história foi inspirada", escreveu um perfil na plataforma. "É história real? Passada", questionou outro. "As autoras não admitem. Dizem que é ficção, mas o enredo lembra muito um caso real que aconteceu no Rio", respondeu a mesma pessoa.
Criada por Diane Maia e Mirna Nogueira - que também assina como roteirista-chefe -, a série conta com direção-geral de Mauro Mendonça Filho e direções episódicas de Gabriela Amaral Almeida e Daniela Carvalho. No elenco, além do trio de protagonistas, destaca-se a participação de José de Abreu como Bóris Petrov, pai de Irina.
A divulgação oficial da plataforma prefere focar nos conflitos de poder da elite carioca, destacando o amor sufocante e o controle excessivo que a personagem de Marieta Severo exerce sobre a filha. Em nenhum momento o material promocional cita Geneviève, Sabine ou Rosa, reforçando que a produção deve ser encarada como uma trama dramática independente.
Para entender o porquê de o público enxergar tanta similaridade, é preciso voltar a agosto de 2022. Naquele mês, a Polícia Civil do Rio de Janeiro deflagrou a Operação Sol Poente para investigar um suposto esquema de fraude contra Geneviève Boghici, então com 82 anos, viúva do influente marchand e colecionador de arte Jean Boghici.
A denúncia apresentada pelo Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) em setembro daquele ano estimou o prejuízo da idosa em mais de R$ 725 milhões. De acordo com a acusação, o golpe teria sido elaborado pela própria filha de Geneviève, Sabine, em cumplicidade com sua companheira, Rosa Stanesco Nicolau, e outros parentes de Rosa.
A narrativa do Ministério Público descreve que tudo começou em janeiro de 2020, quando Diana Rosa Aparecida Stanesco Vuletic se aproximou de Geneviève afirmando que a vida de Sabine corria perigo. A mãe foi induzida a acreditar que apenas trabalhos espirituais poderiam salvar a filha. Na sequência, outras mulheres confirmaram a profecia, entre elas Rosa, a Mãe Valéria de Oxóssi, que ofereceu os rituais.
Para dar veracidade ao plano e convencer a mãe a pagar quantias milionárias, Sabine teria fornecido informações confidenciais sobre a própria família. Enganada, Geneviève realizou oito transferências bancárias e acabou entregando joias e quadros valiosíssimos. Durante a pandemia de Covid-19, a idosa ainda teria sido mantida em cárcere privado no próprio apartamento em Copacabana, sob agressões, ameaças e privação de comida.
Em setembro de 2022, a Justiça decretou a prisão preventiva de Sabine, Rosa e de outros quatro denunciados por crimes como extorsão, roubo, estelionato, cárcere privado e associação criminosa, em fatos apurados e detalhados por veículos como o UOL TAB.
A presença do universo das artes é o elo que mais chama a atenção de quem acompanha o caso. Jean Boghici, falecido em 2015, construiu um dos acervos mais importantes da arte moderna brasileira, administrado por Geneviève.
No caso real, a investigação revelou que quadros assinados por mestres como Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti, Rubens Gerchman e Cícero Dias foram retirados da residência sob o bizarro pretexto de que precisavam passar por uma "limpeza espiritual".
Entre as telas recuperadas pela polícia estava a emblemática Sol Poente, de Tarsila do Amaral. Essa coleção, inclusive, já trazia um histórico dramático: em 2012, um incêndio na cobertura da família destruiu obras históricas, como a pintura Samba, de Di Cavalcanti. Esse detalhe trágico foi inclusive relembrado pela jornalista Claudia Castelo Branco, que investiga a história há anos, ao analisar os pontos em comum entre a vida real e o trailer da produção.
A repercussão do caso sempre foi alimentada pela dolorosa dinâmica de ver uma filha acusada de golpear a própria mãe. Sabine era atriz, modelo, cantora e colecionadora de bonecas. Em entrevista concedida ao jornal O Globo em janeiro de 2026, Geneviève voltou a falar publicamente sobre a tragédia, desabafando sobre o desespero que a fez acreditar naquelas pessoas e o modo como o convívio familiar ruiu.
"Uma meia-irmã de Rosa, Diana Stanesco, me abordou na rua como se já me conhecesse, como se soubesse minha história. Foi aí que começaram as exigências: disseram que eu tinha que fazer trabalhos espirituais. Disseram que Sabine estava possuída e que eu precisava pagar por trabalhos espirituais porque ela morreria. O primeiro pedido foi de R$ 50 mil, e nunca mais pararam. Eu dei muito dinheiro", contou ela.
"Ela levou obras valiosas para a casa dela. Era um golpe muito bem arquitetado. A manipulação não era só financeira. Elas entraram na nossa casa, afastaram pessoas de confiança. Aos poucos, Sabine se transformou. Passou a obedecer às ordens de Rosa, a seguir orientações espirituais que eu não entendia", acrescentou a viúva de Jean Boghici.
Geneviève chegou a dizer que foi ameaçada com um facão pela própria filha. "Rosa colocou na cabeça dela que eu estava possuída e que precisava morrer. Só sobrevivi porque comecei a investigar quem elas eram. Tentei buscar ajuda médica para Sabine, mas fui impedida. Rosa mandou Sabine fugir. Essa foi a última vez que vi minha filha viva", recordou.
A história ganhou um contorno ainda mais pesado e delicado em setembro de 2023, quando Sabine morreu após cair do quarto andar de um prédio na Lagoa, Zona Sul do Rio. A morte foi inicialmente registrada como suicídio, mas Geneviève pediu a reabertura das investigações para apurar se a filha poderia ter sido induzida a se matar.
Com o estrondo do lançamento de Dom de Iludir, muitos leitores passaram a procurar Claudia Castelo Branco para perguntar se ela teria escrito a série ou se a Netflix havia adaptado seu livro de não ficção, fruto de quatro anos de apuração e mais de 280 horas de entrevistas.
Em artigo publicado em 30 de setembro, a pesquisadora deixou claro que não tem qualquer ligação com a produção do streaming, explicando que seu trabalho audiovisual é voltado para outro projeto e formato. Claudia defendeu a liberdade criativa do roteiro e lembrou que uma obra ficcional pode condensar acontecimentos e alterar cronologias sem que isso represente uma adaptação oficial dos fatos.