Há diversas opções de doramas para todo tipo de público na Netflix - desde os que gostam de uma boa histórias de vingança aos que não dispensam um romance clichê cheio de reviravoltas. Mas, às vezes, é no simples que encontramos histórias que nos tocam na alma e fazem perceber que a vida não precisa de nada mais do que as pequenas alegrias do dia a dia.
'Amor e Outros Dramas' é um daqueles doramas que entretêm na mesma medida que nos emocionam e trazem importantes lições de vida - e, por isso, não é exagero dizer que tem o poder de transformar o espectador. Ao longo de 20 episódios, todos com mais de 1 hora de duração, não espere grandes reviravoltas, nem um vilão que todos vão odiar e muito menos os clichês românticos repletos de dramalhões.
Essa produção coreana da Netflix, assinada por No Hee-kyung, uma das roteiristas mais respeitadas do país, é ambientada na Ilha de Jeju, mesmo cenário do incrível dorama 'Se a Vida Te Der Tangerinas...', e narra a vida real da comunidade local - desde pescadores a comerciantes, jovens, idosos e as mergulhadoras haenyeo, que são o cartão-postal do local.
Ao longo dos 20 episódios, a história é uma só, mas organizada em blocos que dão foco em histórias diferente de diversos personagens, embora todos estejam conectados entre si. São abordados velhos amigos de escola, amores mal resolvidos, mães e filhos distantes, vizinhos que se conhecem há décadas e temas delicados que vão da depressão ao aborto e Síndrome de Down.
Ah, vale dizer para os apressadinhos: a série não corre, ela caminha - por vezes devagar, sim, mas trazendo a beleza de uma vida comum, de pessoas comuns, em uma Coreia sem arranha-céus ou CEO's gatos dispostos do mais absurdo ganho financeiro e de regalias luxuosas. É o famoso 'viver feliz no simples', embora nem sempre a vida seja feliz.
Não há como não destacar o talento descomunal reunido neste dorama. Lee Byung-hun, conhecido por suas atuações marcantes em 'Mr. Sunshine' e 'Round 6', mostra aqui sua faceta mais humana como Lee Dong-seok, um comerciante digno daqueles que, no Brasil, seria o homem do 'carro do ovo'. Ao seu lado, Shin Min-a brilha em uma das atuações mais emocionantes de sua carreira, retratando com coragem uma mulher em luta contra a depressão.
E não para por aí. Temos Lee Jung-eun, que vive uma haenyeo e comerciante de peixes, Cha Seung-won, que mesmo em uma curta participação brilha como um bancário falido, a potência de Kim Hye-ja como uma mãe solitária que enfrenta um câncer terminal, os segredos de Han Ji-min, que tem uma irmã gêmea com Síndrome de Down, e a presença marcante de Kim Woo-bin, um capitão de barco apaixonado.
Em 'Amor e Outros Dramas', nenhum personagem é coadjuvante e todos têm direito ao protagonismo de suas próprias histórias em determinados momentos do k-drama. Cada episódio é construído com uma delicadeza que permite ao espectador mergulhar na realidade dos personagens e sentir suas dores.
Não há pressa em resolver conflitos, nem necessidade de explicar tudo a todo instante. Há apenas a percepção de que essa poderia ser a nossa história ou de alguma pessoa próxima a nós - com seus amores e outros dramas que fazem da vida essa grande montanha russa de sentimentos e sensações.
Se 'Amor e Outros Dramas' é tão impactante, é porque ele ousa falar sobre tudo o que nos atravessa ou a terceiros em algum momento da vida: depressão, violência, gravidez na adolescência, aborto, luto, abandono, traumas familiares. Mas o diferencial é que o k-drama faz isso sem sensacionalismo.
A personagem Seon-a (Shin Min-a) é um dos maiores exemplos disso. Seus episódios escancaram o quão injusto é dizer que a saúde mental depende apenas da "força de vontade". A série mostra que viver com depressão exige uma coragem gigantesca, e que oferecer apoio é mais sobre presença do que sobre conselhos. E isso muitas vezes não acontece com sua personagem, o o que a leva a atentar contra a própria vida.
Todos os personagens, mesmo os que surgem brevemente, têm camadas. E a principal reflexão do dorama está nisso: em nos lembrar que ninguém é só uma coisa, ninguém é só bom ou ruim, forte ou frágil. Todos os personagens erram, amam e, acima de tudo aprendem com as consequências das próprias atitude.
Não há episódio que não provoque alguma reflexão, por mínima que seja, em seu interior. Todos os arcos tocam em algo que nos fazem repensar a vida: como lidamos com a culpa? Como deixamos o passado ir? Como recomeçamos depois de perder alguém? Como criamos filhos quando ainda estamos curando nossas próprias feridas? O dorama não nos entrega respostas fáceis, e muitas vezes nos convida a refletir como faríamos nessas ocasiões.
'Amor e Outros Dramas' passa todos seus momentos nos emocionando de alguma forma. Mas no fim, quando os dois últimos episódios chegam, as lágrimas são inevitáveis. A história se fecha com maestria entre mãe e filho, interpretados por Kim Hye-ja e Lee Byung-hun, que passaram a vida toda sem se falar devido a mágoas de infância.
Cá entre nós, só esse arco poderia sustentar sozinho um dorama por completo. No fim, com a mãe sofrendo de um câncer terminal, os dois têm a possibilidade de ter uma última reconciliação antes de um fim de ciclo. Em uma última chance de olhar no olho, de pedir perdão e de reconhecer seus erros antes que o tempo acabe, você estará mais envolvido do que esperava. E muito provavelmente chorando um bocado.
'Amor e Outros Dramas' não é um dorama para ser maratonado em um só final de semana, mas sim para ser sentido, como nos ocorridos, em pequeno pedaços do seu dia a dia. No fim, tudo o que temos é um convite para viver a vida simples como ela é, em dar valor às pequenas coisas e às belezas do cotidiano.
Você nunca mais será a mesma pessoa depois de assistí-lo.
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