Quem acompanha a novela "Terra Nostra" nesta reexibição na "Edição Especial" das tardes da Globo certamente embarca na trama por causa da sofrida e apaixonada Giuliana, vivida por Ana Paula Arósio. Mas quase ninguém percebeu que, além dos xales e das saias simples, havia um item discreto que praticamente nunca saía do figurino da personagem. E é justamente esse detalhe que cria uma conexão curiosa com Dona Beja, interpretada por Grazi Massafera.
Exibida originalmente em 1999 e ambientada no final do século XIX, mais precisamente entre os anos de 1894 e 1896, a trama de Benedito Rui Barbosa retratou o início da imigração italiana no Brasil após o fim da escravidão. Na história, inúmeras famílias deixaram a Itália, mergulhada em recessão, e enfrentaram uma viagem de navio que durava cerca de três meses. Ao chegar aqui, já estavam endividadas com os fazendeiros, que cobravam moradia, alimentação e os custos da travessia.
De acordo com o site Memória Globo, o lenço usado por Giuliana virou hit na época. Os tecidos do figurino passaram por processos de envelhecimento para retratar a realidade das imigrantes italianas. Vale lembrar que essas mulheres trabalhavam na lavoura e em serviços domésticos pesados, como lavar roupas no rio. Não havia preocupação com moda. Muitas costuravam as próprias peças.
O figurino era composto por saia longa, blusa, xale e cabelo solto, quase sempre sem chapéu. O frio mais rigoroso da Itália também influenciava essas escolhas. O famoso look azul da personagem aparece em várias imagens disponíveis até hoje. Após o casamento com Marco Antônio, filho do banqueiro Batista, vivido por Raul Cortez, seus trajes ficaram mais sofisticados, embora poucas imagens dessa fase circulem.
Mas o acessório que realmente chama atenção é o camafeu que acompanhou Giuliana praticamente durante toda a trama. Historicamente, o camafeu era usado como amuleto de proteção e símbolo de herança familiar.
Em meio a tantas perdas, mentiras e reviravoltas, como o momento em que a sogra manda o bebê da protagonista para a roda dos enjeitados, o colar permanecia ali, discreto e constante. É curioso perceber como um pequeno detalhe de figurino pode revelar significados profundos.
Anos depois de "Terra Nostra", outro colar voltaria a chamar a atenção do público. A primeira versão de "Dona Beija" foi uma telenovela brasileira produzida e exibida pela Rede Manchete em 1986, protagonizada por Maitê Proença. Já na nova leitura da história, em 2026, produzida pela HBO Max, é Massafera quem assume o papel da lendária Dona Beja. A atriz, que também está no ar em "Três Graças", surge em cena usando um relicário de forte carga simbólica, detalhe que não passa despercebido aos olhos mais atentos.
Embora não haja confirmação oficial sobre a intenção da escolha do figurino, o acessório parece fazer referência às Três Graças da mitologia grega, criando uma ligação direta com a novela homônima, criada por Aguinaldo Silva. O relicário usado por Beja traz a imagem de Aglaia, Eufrósina e Tália, figuras centrais que simbolizam beleza, alegria, abundância e harmonia, virtudes frequentemente associadas à sedução, ao carisma e ao poder feminino.