Muitas consideram a aposentadoria uma fase em que se tem mais liberdade e tempo disponível. Depois de décadas de trabalho, a expectativa é poder dormir mais, viajar, cuidar de interesses pessoais e organizar os dias sem compromissos profissionais. Para algumas pessoas, porém, essa mudança pode trazer uma grande solidão.
Isso acontece, em parte, porque o trabalho representa mais do que apenas uma fonte de renda: a profissão também pode organizar a rotina, proporcionar contato social, estabelecer objetivos e oferecer a sensação de que a pessoa é necessária.
Então, quando isso tudo acaba, surge a necessidade de encontrar outras formas de ocupar o tempo e, principalmente, de definir a própria identidade.
Pesquisadores da Universidade Nacional da Austrália analisaram como os papéis que uma pessoa possui antes da aposentadoria podem influenciar sua adaptação a essa nova fase. O estudo, publicado no 'Journal of Organizational Behavior', mostrou que as pessoas chegam à aposentadoria com identidades bem diferentes.
Enquanto algumas pessoas conseguem preservar antigos papéis ou desenvolver novos interesses com facilidade, outras podem passar por um período de incerteza até encontrar uma nova forma de se identificar, o que ajuda a entender por que algumas pessoas podem ter dificuldade para simplesmente aproveitar o tempo livre da aposentadoria.
Para quem passou muitos anos associando seu reconhecimento ao trabalho, deixar de produzir pode exigir uma mudança importante na maneira de enxergar a própria vida.
Apesar dessa relação, não é correto afirmar que pessoas solitárias depois de se aposentar construíram toda a sua identidade em torno da produtividade. Os estudos mostram que a experiência varia de acordo com diferentes fatores, incluindo o país, as circunstâncias da aposentadoria e a vida social de cada indivíduo.
Uma pesquisa longitudinal com adultos da Austrália, China e Estados Unidos encontrou diferenças importantes entre os países. Nos Estados Unidos, a prevalência estimada de solidão foi de 19,3% entre aposentados, contra 15,7% entre pessoas que continuavam trabalhando. Na China, os resultados foram diferentes, com maior ocorrência de solidão entre aqueles que ainda trabalhavam.
Outro levantamento, realizado com 3.758 participantes do 'Estudo Longitudinal Inglês sobre Envelhecimento', não encontrou uma associação entre a aposentadoria e o aumento da solidão, tanto no curto quanto no longo prazo. Os pesquisadores observaram ainda que a aposentadoria poderia reduzir o isolamento social.
Mais do que a aposentadoria em si, um dos pontos importantes parece ser o que acontece na vida da pessoa depois que ela deixa o emprego. Manter vínculos sociais, participar de grupos e construir novas relações pode contribuir para o bem-estar e para a satisfação com a vida. Por isso, preparar-se para a aposentadoria envolve mais do que organizar as finanças.
Também vale pensar sobre o que o trabalho oferecia além do salário. Se a profissão proporcionava encontros frequentes, objetivos, responsabilidades e sensação de utilidade, esses elementos precisam encontrar novos espaços na rotina após a aposentadoria. Então, para algumas pessoas, aprender a descansar pode ser parte dessa adaptação.
Por isso, construir uma rotina com relações sociais e atividades que dão prazer pode ajudar a tornar essa transição mais equilibrada. A aposentadoria não exige apenas deixar o trabalho e, em muitos casos, ela também ajuda a descobrir como continuar se reconhecendo fora dele.