Para algumas pessoas, a solidão é sinônimo de vazio, abandono e tristeza. Para outras, porém, ela pode ser um espaço de liberdade, descanso e autoconhecimento. A diferença está menos no fato de estar sozinho e mais na maneira como essa experiência é vivida.
É nessa complexidade que a psicologia faz a gente pensar. O filósofo Arthur Schopenhauer resumiu sua visão sobre o assunto em uma frase que atravessou gerações: “A solidão é a herança de todas as mentes superiores”.
A afirmação pode soar exagerada, especialmente para a psicologia moderna, mas levanta uma reflexão interessante sobre a capacidade de uma pessoa se sentir bem na própria companhia.
Hoje, psicologia e psiquiatria fazem uma distinção importante entre estar sozinho e sentir-se sozinho. Uma pessoa pode passar algumas horas ou até dias sem companhia e, ainda assim, sentir-se emocionalmente conectada aos outros.
A solidão escolhida não significa desprezar amigos, familiares ou parceiros, e sim, ter vínculos e saber que é possível procurá-los quando houver vontade ou necessidade.
Um dos principais estudiosos dessa questão foi o pediatra e psicanalista britânico Donald Winnicott. Em 1958, ele publicou o ensaio 'A Capacidade de Estar Sozinho', no qual classificou essa habilidade como um dos sinais importantes de maturidade emocional.
O paradoxo apresentado por Winnicott é especialmente bonito: aprendemos a ficar sozinhos na presença de alguém.
Durante a infância, a criança desenvolve essa capacidade porque teve, anteriormente, uma pessoa confiável por perto. Pais ou responsáveis oferecem segurança suficiente para que, pouco a pouco, a criança consiga experimentar momentos de independência sem interpretá-los como abandono.
Na vida adulta, esse aprendizado pode se transformar em uma fonte de enriquecimento pessoal. Estar sozinho pode permitir organizar pensamentos, descansar da quantidade de estímulos do cotidiano, refletir sobre decisões e simplesmente passar algum tempo sem precisar corresponder às expectativas de ninguém.
Schopenhauer, no entanto, não dizia que a solidão seria agradável para todos. Dentro de sua visão pessimista da existência, ele considerava que, para determinadas pessoas, a companhia superficial poderia ser mais incômoda do que a própria solitude.
A psicologia atual é menos radical. A solidão pode funcionar como uma forma de autorregulação, ajudando algumas pessoas a reduzir a intensidade de emoções e recuperar a sensação de calma.
Mas existe uma diferença fundamental: a motivação importa. Quando alguém escolhe ficar sozinho porque precisa descansar, pensar ou simplesmente aproveitar a própria companhia, a experiência pode ser positiva e até reduzir o estresse.
Quando o isolamento acontece porque a pessoa se sente rejeitada, abandonada ou incapaz de estabelecer vínculos, a experiência pode produzir justamente o efeito contrário.
E essa diferença vale para qualquer idade. Adolescentes, adultos e idosos podem precisar de momentos de solitude, desde que isso não se transforme em um afastamento involuntário das relações importantes.
Um exemplo curioso vem de Fiuk. Há cerca de 15 anos, o cantor falou ao Extra sobre o prazer de ficar sozinho e chegou a dizer: “Gosto de ficar sozinho e tenho meus melhores amigos, que são meus carros. É a melhor terapia que existe.”
A declaração até rende uma pequena ironia quando lembramos que, atualmente, Fiuk passa por um momento financeiro delicado e chegou a colocar alguns de seus carros à venda. Nesse caso, ele mesmo precisou se afastar dos seus 'melhores amigos' para encontrar a felicidade.
Ainda assim, a frase revela algo interessante sobre sua relação com a própria companhia. E talvez seja essa a principal lição da psicologia moderna: estar sozinho não precisa significar estar solitário.