A separação de Thais Carla e Israel Reis, anunciada na última sexta-feira (10), rapidamente tomou conta das redes sociais. Em poucas horas, milhares de comentários passaram a relacionar o fim do casamento de 11 anos à cirurgia bariátrica e à perda de cerca de 100 kg da influenciadora. Frases como "foi só ela emagrecer" e comparações com casos exibidos em programas como "Quilos Mortais" dominaram a repercussão no X, antigo Twitter.
Mas será que uma transformação tão grande realmente pode mudar um relacionamento? Ou a internet está simplificando uma história muito mais complexa?
É importante destacar que a própria Thais explicou o motivo do término. "Deixa eu falar uma coisa séria com vocês. Eu e o Israel, depois de muitos anos, começamos a ter ideias e pensamentos diferentes sobre o que a gente quer para o futuro. Totalmente diferentes. A gente tem que entender que não pode ficar cedendo só ao que o outro quer. A gente também tem que ser feliz da forma que a gente quer", disse ela recentemente nos stories.
"Eu não queria ele infeliz porque ele quer ficar no interior, e eu não quero ficar infeliz porque quero ficar aqui em São Paulo e construir novos horizontes. Ele queria ficar mais quieto na dele, e eu queria outras coisas. Então, o nosso casamento acabou por causa disso. Parem de inventar coisas. Parem de teorizar as coisas. Está tudo bem!", afirmou.
Ainda assim, o debate levantou uma questão que vai muito além do caso dos dois: afinal, grandes mudanças na vida de uma pessoa podem impactar a dinâmica de um relacionamento? Para entender esse fenômeno, o Purepeople conversou com a psicóloga clínica Daniela Pereira (CRP 09/014487).
Segundo Daniela, é natural que mudanças importantes na vida de uma pessoa acabem refletindo na relação amorosa. Isso, porém, não significa que elas conduzam, necessariamente, a uma crise ou ao fim do relacionamento.
"Sim, é muito comum. Quando uma pessoa passa por uma transformação muito importante – seja ela física, emocional ou comportamental – ela também costuma mudar a forma como se percebe e como se relaciona com o outro. Essas mudanças podem envolver autoestima, prioridades, hábitos, interesses e até a comunicação dentro do relacionamento", explica.
A psicóloga faz questão de destacar que esse processo não deve ser encarado como uma sentença para o casal. "É importante destacar que esse impacto não significa necessariamente uma crise ou uma separação. Muitos casais conseguem atravessar esse momento fortalecendo o vínculo, desde que existam diálogo, flexibilidade e disposição para crescerem juntos dentro da relação", afirma.
Para Daniela, uma cirurgia bariátrica ou uma perda expressiva de peso representa muito mais do que uma transformação física.
"Mudanças importantes costumam provocar uma reconstrução da identidade. É comum que a pessoa desenvolva mais autoconfiança, fortaleça a autoestima e passe a estabelecer limites que antes não conseguia colocar. Ao mesmo tempo, esse processo também pode trazer algumas inseguranças, como, por exemplo, o medo de julgamento e a necessidade de adaptação ao novo cenário", diz.
Ela ressalta que essa mudança também altera a forma como a pessoa passa a enxergar seus relacionamentos. "Não é apenas uma mudança física, é uma transformação psicológica que influencia a forma de enxergar a si mesma e de se relacionar com o parceiro", completa.
Um dos pontos destacados pela especialista é que mudanças individuais costumam provocar um efeito em todo o relacionamento.
"Sim, todo relacionamento funciona como um sistema: quando um muda, o outro também precisa se reorganizar e mudar. Os desafios podem incluir renegociar os papéis, adaptar as rotinas, lidar com inseguranças e fortalecer a comunicação. Em alguns casos, pode até surgir o medo de perder espaço na relação ou uma dificuldade para acompanhar esse novo momento do parceiro ou parceira".
Segundo Daniela, esse impacto tende a ser ainda maior em relações que já apresentavam determinadas características antes da transformação.
"Alguns relacionamentos podem sentir esse impacto de forma mais intensa, principalmente aqueles marcados por dependência emocional, excesso de cuidado, pouca autonomia ou papéis muito rígidos dentro da relação. Quando um dos parceiros muda muito, essa dinâmica pode deixar de funcionar da mesma forma. Mas isso não significa que o relacionamento esteja condenado, significa apenas que ambos precisarão construir uma nova forma de se relacionar", pontua.
Nas redes sociais, muitos internautas passaram a tratar a perda de peso de Thais Carla como uma explicação para o término. Para a psicóloga, essa conclusão ignora a complexidade das relações humanas.
"Existem pesquisas que mostram uma associação entre a cirurgia bariátrica e mudanças na dinâmica conjugal, inclusive com um aumento nas taxas de separação em alguns grupos estudados. Mas é fundamental entender que associação não significa causa", esclarece.
Ela reforça que a cirurgia, por si só, não explica o fim de um relacionamento: "A cirurgia não provoca o término de um relacionamento. Ela acontece junto a mudanças físicas, emocionais, sociais e comportamentais que podem influenciar a vida da pessoa e do casal. Cada história é única e não pode ser explicada apenas por um único fator".
Daniela ainda chama atenção para a importância do acompanhamento psicológico antes e depois da bariátrica.
"Gostaria até de ressaltar a importância da avaliação psicológica antes da realização de uma cirurgia bariátrica. Nesse acompanhamento, é feito todo um processo de atendimento, entrevistas e reconhecimento das mudanças pelas quais a pessoa irá passar. É extremamente importante que ela esteja em psicoterapia e passe por essa avaliação psicológica corretamente", orienta.
Enquanto milhares de comentários buscavam relacionar o término de Thais Carla à bariátrica, Daniela afirma que esse comportamento é mais comum do que parece.
"Nosso cérebro gosta de respostas simples para situações complexas, pois temos 'preguiça' de pensar. Encontrar um único motivo reduz a sensação de incerteza. Porém, os relacionamentos são muito mais complexos do que isso. Um término costuma envolver diversos fatores que vão sendo construídos ao longo do tempo. Por isso, atribuir o fim de uma relação a um único acontecimento costuma ser uma simplificação da realidade", analisa.
A psicóloga conclui lembrando que, embora uma mudança importante possa influenciar diferentes áreas da vida, ela dificilmente explica sozinha o fim de um casamento.
"O maior equívoco é acreditar que existe uma única causa para um término. Relacionamentos são construídos diariamente e também se transformam ao longo do tempo. Uma mudança física ou de estilo de vida pode representar um momento importante dessa história, mas dificilmente explica sozinha o fim de uma relação. Como psicóloga, acredito que o mais ético é evitar julgamentos e generalizações. Apenas as pessoas que viveram aquela relação conhecem de fato toda a complexidade de sua história", finaliza.