São tempos muito assustadores para quem tem o mínimo de consciência política.
Na realidade, até quem escolhe não pensar muito sobre o assunto - sendo esse, muitas vezes, o caminho mais fácil - acaba sendo bombardeado pelos absurdos que aparecem na timeline, pelas ofensas às minorias vindas de quem deveria representar a população e por propostas que, em determinados debates, parecem muito mais preocupadas em alimentar conflitos do que em apresentar mudanças. E não dá para simplesmente fechar os olhos!
Afinal, acompanhar política também é uma forma de entender o mundo em que vivemos, conhecer nossos direitos, cobrar quem ocupa cargos públicos e participar das decisões que afetam a vida de todo mundo. A própria Constituição Federal estabelece a cidadania e o pluralismo político como fundamentos da República e determina que todo o poder emana do povo, exercido por meio de representantes eleitos ou diretamente.
Mas existe uma diferença importante entre estar informado e permanecer em estado de alerta o tempo inteiro.
Para se proteger, além de lutar pelos próprios direitos - seja participando de manifestações pacíficas, cobrando autoridades ou simplesmente procurando informações confiáveis -, também é importante se permitir um intervalo. Não dá para ser alienado, mas também não dá para transformar cada minuto do dia em uma nova rodada de notícias, discussões e notificações. Ser consciente é diferente de ser hipervigilante!
Então, como encontrar esse equilíbrio em uma época em que parece que alguma coisa está acontecendo o tempo inteiro?
A neurocientista e aromaterapeuta Daiana Petry explica como uma mente pode se apresentar hiperconectada e lista 5 passos para criar uma transição entre o excesso de estímulos e o descanso.
Nas últimas semanas, a mente pode ter consumido informações sobre política, violência, economia, saúde, trabalho e a vida de outras pessoas. Em períodos de grande movimentação no noticiário, como as Eleições, esse comportamento pode ficar ainda mais intenso.
Para Daiana, o problema não está simplesmente em se informar, mas na dificuldade de estabelecer intervalos entre tantos estímulos. “Nosso cérebro precisa selecionar o tempo todo aquilo que merece atenção. Quando passamos horas alternando entre notícias, vídeos, mensagens, trabalho e notificações, fazemos sucessivas mudanças de foco. Mesmo quando cada conteúdo dura poucos segundos, existe uma demanda constante de processamento”, explica.
A pessoa fecha o computador, mas continua com o celular nas mãos. Vai para o sofá e acompanha as notícias. Janta vendo vídeos. Deita e faz uma última checada nas redes sociais - que, convenhamos, muitas vezes deixa de ser uma última checada e vira mais meia hora ou uma hora de conteúdo. O corpo até mudou de ambiente. A cabeça, nem tanto.
“O cérebro não recebe uma mensagem clara de que aquela etapa terminou. Você mudou de cômodo, mas continuou exposto ao mesmo tipo de estímulo: tela, informação nova, alerta, novidade, discussão e expectativa sobre o que virá depois”, afirma Daiana.
Isso não significa que acompanhar notícias cause, por si só, um transtorno de ansiedade. A questão levantada pela especialista é outra: um cotidiano marcado por hiperconectividade, preocupação e ausência de períodos reais de descanso pode contribuir para a sensação de estar permanentemente “ligado”.
Irritabilidade, dificuldade para se concentrar, sensação de cabeça cheia e dificuldade de desacelerar antes de dormir podem aparecer nesse contexto e merecem atenção, principalmente quando se tornam frequentes ou começam a prejudicar a rotina.
Daiana explica que os sentidos também podem participar da construção de rotinas. Assim como determinadas músicas, ambientes e iluminações podem ser associados a momentos específicos, um aroma pode se tornar uma pista ambiental relacionada ao início de um período de descanso.
Isso acontece por aprendizagem e associação. Quando um mesmo estímulo sensorial é repetidamente inserido em determinado contexto, ele pode passar a fazer parte daquela rotina.
“Não é porque determinado aroma possui um botão capaz de desligar o cérebro. A ideia é outra: criar um conjunto de sinais que indiquem que o período de estímulos intensos terminou. O cheiro pode fazer parte desse ritual junto com a redução das telas, uma iluminação mais baixa e uma respiração mais tranquila”, explica.
E aqui vale outra ressalva importante: a proposta não é tratar ansiedade com um cheiro ou transformar a aromaterapia em uma solução milagrosa. A ideia é criar um pequeno ritual que ajude a marcar a passagem entre o momento de receber informações e o momento de descansar.
Daiana sugere uma experiência de apenas cinco minutos ao final do dia. A proposta é construir uma transição entre o período de informação e o período de descanso.
Escolha cinco minutos em que você não vai consumir notícias, responder mensagens ou assistir a vídeos. Sim, cinco minutos. Parece pouco e talvez justamente por isso seja mais fácil começar.
Diminua a intensidade da iluminação e, se possível, vá para um espaço diferente daquele utilizado para trabalhar. A ideia é criar uma mudança concreta no ambiente para acompanhar a mudança de ritmo.
A lavanda pode ser uma opção para quem associa esse cheiro a conforto e tranquilidade. Mas não existe obrigação de escolher esse aroma. O mais importante é que o cheiro seja agradável para aquela pessoa e possa ser incorporado ao ritual.
Não é necessário fazer inspirações muito profundas. A proposta é perceber o aroma e a própria respiração sem transformar aqueles cinco minutos em mais uma tarefa de desempenho.
Afinal, até descansar pode virar uma cobrança quando a gente começa a pensar que precisa descansar “do jeito certo”.
Quando realizado de maneira consistente, o conjunto de sinais - guardar o celular, mudar a iluminação, diminuir os estímulos e sentir determinado aroma - pode ajudar a marcar a passagem entre dois momentos do dia. Não é uma fórmula mágica. É uma rotina. "Às vezes queremos encontrar uma técnica extraordinária para descansar, quando o primeiro passo é muito mais básico: parar de entregar novidade ao cérebro o tempo inteiro", conclui a especialista.