Em algum momento da história, venderam para nós a ideia de que o sucesso na vida só era possível se tivéssemos ambição. Se você quisesse vencer, precisava subir na carreira, conquistar promoções e chegar a um cargo de chefia. Esse seria o ápice da trajetória profissional: tornar-se chefe.
No caso das mulheres, o conceito de “girlboss” passou a ser associado ao empoderamento feminino justamente porque, historicamente, elas foram excluídas dos postos de poder no mercado de trabalho.
Agora, porém, a geração Z (nascidos entre 1997 e 2010) e também muitos millennials enxergam essa ambição de outra forma. O sonho de ser uma girlboss mudou: o objetivo passou a ser o minimalismo profissional.
Segundo um relatório da Glassdoor, os trabalhadores mais jovens veem o emprego principalmente como um meio de alcançar estabilidade financeira, mas reservam sua paixão e sua ambição para o tempo livre e para trabalhos paralelos, que têm se tornado cada vez mais lucrativos.
É isso que passou a ser chamado de “minimalismo profissional”: simplificar a rotina de trabalho e limitar as responsabilidades ao mínimo necessário e ao que está previsto no contrato. Nada além disso.
O objetivo é evitar o burnout, as jornadas excessivas e se posicionar contra a chamada “cultura do hustle”, ou cultura da correria e do trabalho sem descanso.
Na prática, essa tendência é mais uma expressão da busca incansável da geração Z por bem-estar. E, nessa busca, o centro da vida não está no trabalho, mas no tempo fora dele.
Como afirmou o economista Daniel Zhao à revista Fortune, “a gestão não é para todo mundo, e tudo bem, mas ela ainda é considerada o principal caminho para crescer profissionalmente”.
O curioso é que sete em cada dez jovens não querem ser chefes. E, de acordo com o mesmo relatório, apenas 10% dos gerentes pertencem à geração Z, justamente porque essa geração passou a desejar outra coisa.
Se levarmos em conta que a geração Z é a que mais se preocupa com saúde mental e que popularizou termos como “conscious unbossing” — a decisão consciente de recusar promoções para cargos de média gestão — e também fenômenos como a demissão silenciosa, não surpreende que agora o minimalismo profissional esteja sendo apresentado como a nova definição de sucesso.
Em uma carta ao diretor publicada no jornal El País, Neus Martínez Navarro argumentava que, embora tenhamos sido educados com a ideia de que “o esforço é a chave do sucesso”, esse discurso acaba exaltando um modelo exaustivo: “trabalhe mais, sofra mais, talvez um dia ganhe mais”.
O problema, como observa Martínez de forma bastante perspicaz, é que essa lógica “nega que existam trabalhos rotineiros que simplesmente servem como meio de sustento”.
O minimalismo profissional é, em parte, uma reivindicação de que aquela velha promessa de que “o trabalho liberta” — frase que os nazistas mandaram forjar em ferro nos portões do campo de extermínio de Auschwitz — não corresponde à realidade.
O que realmente nos torna livres é trabalhar o suficiente e priorizar o tempo pessoal acima do tempo profissional.
Isso não significa que a geração Z seja preguiçosa, muito pelo contrário. Mais de 55% dos jovens dessa geração têm mais de um emprego.
Portanto, o que eles rejeitam não é o trabalho em si, mas uma ideia já desgastada de trabalho: a de que basta trabalhar cada vez mais para, inevitavelmente, ganhar mais e subir na carreira.
Na visão deles, a meritocracia não funciona como foi prometido, e o cenário econômico atual tornou suas aspirações muito diferentes das gerações anteriores. Eles querem trabalhar para poder viver — e fazer com que a vida que realmente importe seja aquela que acontece fora do trabalho.