“Minha esperança está nos discos voadores". Se alguém dissesse a Lobão, décadas atrás, que essa seria sua resposta ao falar sobre o futuro do Brasil, talvez a frase parecesse mais uma provocação do roqueiro. Mas foi essa a expectativa que o cantor apresentou em entrevista à Folha de S.Paulo, publicada em agosto deste ano.
Aos 69 anos completados neste domingo (11), ele diz que não quer mais saber de campanha eleitoral e afirma que não pretende votar nas eleições deste ano. Acontece que a declaração ganha outro peso quando se olha pelo retrovisor...
Lobão já cantou “Lula-lá” no Domingão do Faustão, virou crítico ferrenho do PT, apoiou Jair Bolsonaro em 2018 e rompeu com o bolsonarismo pouco depois da chegada do ex-presidente ao Planalto. Agora, diz que perdeu a disposição para a disputa política. E não economiza nas palavras para explicar por quê.
Na entrevista à jornalista, o músico afirmou que sua última tentativa de encontrar uma alternativa política foi justamente o apoio a Bolsonaro. A aposta, segundo ele, partiu da expectativa de que aquela direita representasse algo novo. O resultado, porém, não correspondeu ao que imaginava: "A coisa era tosca mesmo”.
Lobão também fala em desilusão com a esquerda e com a direita bolsonarista e diz que prefere ficar fora das campanhas. Mas a mudança de rota chama atenção porque, durante anos, a política foi parte importante de sua imagem pública - e o caminho até essa desistência passou por escolhas bastante diferentes!
É difícil falar da guinada política de Lobão sem voltar a 1989! Naquele ano, durante a campanha presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva, o cantor entoou “Lula-lá” no Domingão do Faustão, da TV Globo. É mole!
Na entrevista de 2026, Lobão voltou a mencionar aquela aproximação e disse ter dado ao PT uma chance histórica, mesmo sem se considerar petista. Também relembrou o episódio da apresentação na televisão, que, segundo sua própria narrativa, acabou envolvendo uma questão eleitoral. A relação com o partido, entretanto, não resistiu ao tempo.
De acordo com outra reportagem da Folha de 2014, o músico situava o início de sua decepção em 2002, quando Lula chegou à Presidência, e apontava o escândalo do mensalão, em 2005, como outro marco desse afastamento. Ainda em 2014, Lobão participava de manifestações contra o governo de Dilma Rousseff, defendia o impeachment da então presidente e circulava entre figuras ligadas à oposição.
Na eleição presidencial de 2018, Lobão apoiou Jair Bolsonaro. Na entrevista recente à Folha, descreveu a decisão como uma espécie de atitude rock n' roll: uma maneira de confrontar o que considerava um sistema político desgastado, marcado, em sua avaliação, por corrupção e concentração de poder.
O cantor disse que acreditava estar apoiando uma direita diferente daquela que acabou encontrando. A expectativa, segundo seu relato, estava ligada também a intelectuais que admirava e que faziam parte daquele ambiente político.
Na ocasião, Lobão reagiu à expressão usada por Bolsonaro para se referir aos estudantes: “Chamar estudante de massa de manobra é coisa de imbecil”, afirmou, segundo a Folha.
Em julho de 2021, o rompimento estava ainda mais explícito. Em entrevista à BBC News Brasil, Lobão defendeu manifestações contra Bolsonaro e o impeachment do presidente. O cantor também explicou que seu apoio de 2018 havia sido motivado pela intenção de tirar o PT do poder e pela expectativa de que setores liberais e militares pudessem conter o então presidente: “Chegou uma hora em que a gente precisa tirar esse cara".
Na entrevista mais recente, o músico foi direto ao explicar o que o afastou das disputas eleitorais. Ele descreveu as campanhas como um ambiente desagradável, com hostilidade entre grupos e pouca perspectiva de renovação. “É a coisa mais pentelha e chata”, disparou.
Lobão também afirmou que não pretende votar em outubro de 2026 e disse que adota essa postura há mais de 30 anos, apesar dos apoios políticos que assumiu publicamente na última década. Na explicação dada à Folha, ele questionou o sentido de investir tempo e energia em uma escolha que, a seu ver, poderia terminar com o voto anulado.