Uma pergunta que fica: será que estamos mais próximos de pessoas que gostamos em tempos de tecnologia avançada? Neste 20 de julho, Dia do Amigo, a reflexão vai muito além das homenagens nas redes sociais. O que realmente sustenta uma amizade não é a quantidade de mensagens trocadas, mas o tempo dedicado ao outro.
Esse dilema foi resumido pelo filósofo José Carlos Ruiz, em entrevista à revista Cuerpomente. Para ele, vivemos um paradoxo: nunca estivemos tão conectados e, ao mesmo tempo, tão distantes. A conexão pode acontecer pela internet, mas o relacionamento verdadeiro exige algo que nenhuma tela consegue substituir: presença, convivência e interação entre pessoas.
Um bom exemplo dessa força aparece na novela 'Quem Ama Cuida', da Globo. Depois de anos dividindo a mesma cela, Adriana (Letícia Colin), Lyris (Pri Helena) e Nancy (Jeniffer Nascimento) reencontram a liberdade sem abandonar os laços construídos no pior momento de suas vidas.
As três ex-presidiárias transformam uma experiência traumática em uma amizade baseada em acolhimento, escuta e apoio. Cada uma, à sua maneira, ajuda a outra a recomeçar. A novela mostra que, muitas vezes, são justamente as maiores dificuldades que fortalecem vínculos verdadeiros.
Mas essa realidade também serve de alerta. O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han afirma que 'hoje não temos tempo uns para os outros' e lembra que somente esse tempo dedicado ao outro 'cria laços fortes, amizade e até mesmo comunidade'. É um pensamento que faz ainda mais sentido na era da hiperconectividade.
Dedicar tempo ao outro significa olhar além do próprio umbigo, e sim, ouvir sem interromper, prestar atenção, cuidar e também permitir ser cuidado. São atitudes simples que, curiosamente, passaram a ser tratadas como luxo em uma rotina marcada pela pressa.
A ciência reforça essa importância. A ocitocina, conhecida como hormônio do bem-estar, é liberada em grandes quantidades quando estabelecemos relações de confiança, carinho e convivência com outras pessoas. Ou seja, nosso cérebro continua funcionando como sempre funcionou: fomos feitos para viver em comunidade.
O problema é que passamos a acreditar que conseguimos fazer tudo sozinhos. Muito se deve ao fato das telas ocuparem o espaço das conversas demoradas, dos encontros improvisados e dos abraços. Muitas vezes estamos cercados de pessoas, mas cada uma olhando para o próprio celular, esperando uma conexão que dificilmente acontecerá daquela forma.
Talvez seja justamente esse o convite do Dia do Amigo. Redescobrir o valor da presença com pequenos gestos, como marcar um café, prolongar um almoço em família, visitar um amigo sem motivo especial, conversar com o vizinho, passear com o cachorro deixando o celular no bolso.
No fim das contas, a amizade cresce no tempo compartilhado, na disponibilidade e na disposição para estar presente. Assim como Adriana, Nancy e Lyris descobriram que ninguém recomeça sozinho, a vida também nos lembra que as maiores conquistas perdem parte do sentido quando não há alguém para dividi-las.