Muito antes das redes sociais dominarem a rotina das pessoas, crianças e adolescentes tinham as brincadeiras na rua como hábito tradicional. Partidas de futebol descalço na terra, visitas inesperadas aos amigos e horas longe das telas faziam parte da infância de quem cresceu nas décadas de 1980 e 1990.
A psicologia aponta que esse estilo de vida mais analógico pode ter fortalecido habilidades emocionais, cognitivas e sociais que hoje parecem cada vez mais raras.
Pesquisas recentes indicam que pessoas que cresceram antes da popularização da internet tendem a desenvolver com mais facilidade características como empatia, paciência, foco profundo e capacidade de lidar melhor com a frustração. A explicação está justamente no tipo de convivência daquela época, marcada por interações humanas mais diretas e estímulos reais do ambiente, menos dependentes da tecnologia instantânea.
Um exemplo global dessa geração é Lionel Messi. Nascido em 1987, o craque argentino viveu uma infância completamente diferente da realidade das crianças atuais. Na época em que dava seus primeiros chutes no Grandoli e, mais tarde, nas categorias de base do Newell's Old Boys, o futebol era analógico. O foco absoluto do menino estava na bola de couro, nas ruas de Rosário e na superação física diária — muito antes de o esporte ser moldado por engajamento digital ou vaidades de redes sociais.
Naquele período, a infância de Messi ainda era estruturada por experiências estritamente presenciais. Era preciso treinar exaustivamente no mundo físico, driblar as adversidades do diagnóstico de deficiência do hormônio do crescimento (tratado com injeções diárias desde a infância) e criar resiliência psicológica longe das curtidas e das notificações imediatas.
Diversos estudos em psicologia buscaram entender justamente se crescer em um ambiente menos digitalizado poderia influenciar diretamente o desenvolvimento emocional e a alta performance das pessoas. Os pesquisadores analisaram a capacidade de foco, resolução de problemas sob pressão e constância no aprendizado de habilidades motoras complexas.
Os resultados apontaram que crianças criadas sem o contato constante com telas e sem a busca por gratificação imediata desenvolveram, com maior frequência, paciência e uma capacidade de "foco hiperfocado", características essenciais para o desenvolvimento do talento genial de Messi no futebol.
Hoje, especialistas observam que muitas dessas capacidades têm sido afetadas pela comunicação acelerada e hiperestimulação das redes sociais. A interação digital facilita o contato, mas também reduz as experiências de ócio criativo e a persistência em tarefas difíceis de longo prazo.
Ainda assim, os pesquisadores deixam claro que a tecnologia não deve ser tratada como inimiga. O grande desafio está no equilíbrio. Segundo os estudos, habilidades excepcionais e a inteligência emocional dependem de múltiplos fatores ligados ao ambiente familiar, educacional e social.
Entre os principais pontos destacados pelos especialistas (e visíveis na infância do jogador) estão:
- Tempo livre e livre de telas para brincar e praticar esportes;
- Fortes interações sociais presenciais e apoio comunitário;
- Suporte e forte estrutura familiar (como a ligação de Messi com sua avó Célia e seus pais);
- Experiências reais de enfrentamento e resolução de conflitos;
- Equilíbrio saudável entre ferramentas tecnológicas e conexões com o mundo real.
A conclusão dos pesquisadores é que, embora celulares e internet tragam inúmeras vantagens estruturais, as crianças ainda precisam de espaços físicos para errar, focar sem distrações digitais e aprender a lapidar o próprio talento no mundo real.