Há um tipo de cansaço que não desaparece depois de uma boa noite de sono, de um fim de semana de descanso ou de algumas férias. É um desgaste silencioso, difícil de explicar, que costuma aparecer quando muitas pessoas chegam aos 30 anos e percebem que passaram a juventude inteira construindo uma vida que, na verdade, nunca foi realmente delas.
Durante os 20 e poucos anos, é comum seguir o caminho que parece 'o certo'. Entre as atitudes dessa época, escolhe-se uma faculdade porque garante estabilidade, aceita-se um emprego que agrada à família ou tenta-se reproduzir o estilo de vida de pessoas admiradas.
O diploma de Direito porque o pai é advogado. A empresa da família porque sempre foi o esperado. A carreira que rende elogios, mesmo sem despertar entusiasmo. Tudo parece fazer sentido, afinal, foi esse o roteiro visto desde a infância.
O problema é que, muitas vezes, essas escolhas nascem da observação de padrões externos. A pessoa passa anos acreditando que a felicidade chegará quando alcançar determinado cargo, salário ou reconhecimento. Mas é muito comum surgir uma pergunta desconfortável: "Era isso mesmo que eu queria?"
É justamente quando vem uma sensação parecida com a de alguém que passou tanto tempo usando uma fantasia que acabou esquecendo que ela nunca fez parte de sua identidade.
A psicologia tem discutido cada vez mais esse fenômeno. Estudos sobre burnout mostram que o esgotamento costuma ser associado quase exclusivamente ao excesso de trabalho e às pressões profissionais.
No entanto, diversos pesquisadores perceberam que viver durante anos em desacordo com os próprios valores, pode gerar desgaste emocional profundo.
Esse conflito aparece de forma sutil também na ficção. Na novela 'Quem Ama Cuida', da Globo, Mau Mau (João Victor Gonçalves) representa bem esse momento de dúvidas que tantos jovens enfrentam.
Nesse momento da trama, o jovem está trabalhando na floricultura com o avô, Otoniel (Tony Ramos), epara ajudar a família. Ao mesmo tempo, enfrenta conflitos relacionados à própria sexualidade e convive diariamente com a pressão do avô, que insiste em impor uma ideia rígida de masculinidade.
Mais do que decidir uma profissão, Mau Mau vive o medo de fazer escolhas que realmente reflitam quem ele é. Na realidade, seu maior desafio talvez não seja escolher um emprego, mas encontrar coragem para abandonar expectativas construídas por outras pessoas e assumir a própria identidade.
É um conflito emocional que dialoga diretamente com a realidade de muitos adultos jovens. Por conta disso que a aceitação do personagem com o público é gigantesco.
Na vida real, essa sensação também costuma aparecer de maneira discreta. A pessoa continua trabalhando, cumpre compromissos, mantém relacionamentos e parece ter uma vida organizada.
Porém, sente um vazio difícil de explicar. Não porque esteja fazendo pouco, mas porque dedica quase toda a energia para sustentar uma versão de si mesma criada para atender expectativas externas.
Logo, romper esse ciclo nem sempre significa mudar radicalmente de carreira, a transformação acontece em pequenas decisões: aprender a dizer 'não', abandonar objetivos que já não fazem sentido, experimentar novos caminhos e, principalmente, perguntar a si mesmo o que realmente deseja, sem considerar apenas o que esperam dele.