O fenômeno é tão comum que ganhou até um apelido: "música-chiclete". É aquela famosa canção que não precisa tocar muito para “grudar” na cabeça. Ela pode nem ser do seu estilo favorito, mas sua letra e melodia ressoam com tanta facilidade na mente, que mesmo depois de muito tempo você ainda é capaz de cantá-la.
Se antes esse som viral era visto apenas como resultado de um refrão fácil ou de uma batida divertida, graças à psicologia, hoje sabemos que existem mais nuances por trás disso.
“O ouvinte não fica preso na nota que já soou. Ele fica preso na que o cérebro está esperando. O ser humano é pura antecipação. Isso é neurociência aplicada. Quando o produtor sabe construir tensão antes de entregar a virada, ele mexe no sistema de recompensa no ponto exato, porque a dopamina dispara mais na espera do que na resolução. É a expectativa que vicia, não o refrão”, explica o neurocientista Eduardo Omeltech.
Na prática, isso significa que algumas músicas conseguem permanecer na memória porque alternam momentos previsíveis com pequenas surpresas ao longo da composição. Essa combinação mantém o cérebro atento e aumenta a vontade de ouvir a faixa novamente.
Se você assimila uma música com rapidez e ela continua voltando involuntariamente na sua cabeça é porque ela tem algum tipo de quebra de expectativa. O seu cérebro reconhece um padrão, antecipa o que vem depois e sente prazer quando a música entrega essa promessa no tempo certo.
Além da questão da expectativa, há outro fator mais pessoal que também torna uma música inevitavelmente mais memorável para alguém.
Quando uma canção fica atrelada a alguma lembrança, de maneira a lembrar uma determinada fase da vida, um lugar específico, uma pessoa ou até mesmo uma sensação, o som consegue atingir uma camada mais emocional do ser humano.
O DJ e produtor musical JESTFLY começou a pesquisar sobre o tema para entender por que algumas experiências sonoras despertavam essa vontade de voltar para elas e mudou sua percepção de como construir música conforme mergulhou no assunto.
“Hoje eu penso muito menos em criar apenas uma música e muito mais em construir uma experiência que desperte alguma lembrança ou emoção. Quando existe conexão emocional, a pessoa não volta só pela melodia. Ela volta pela sensação que aquela música provocou”, explica.
Quando isso acontece, a música deixa de ser apenas uma sequência de notas e passa a ocupar um espaço na memória afetiva de quem a escuta.
“Quando uma canção consegue despertar memória, emoção e expectativa ao mesmo tempo, ela deixa de ser apenas uma música e passa a fazer parte da história de quem está ouvindo”, conclui JESTFLY.
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