Os psicólogos são unânimes: 'Ainda guardamos dentro de nós uma criança que passou por medos: se esses traumas não forem superados, continuarão nos afetando na vida adulta'
Publicado em 17 de agosto de 2026 às 14:40
Por Paula Alves | Colaboradora
Jornalista apaixonada por cinema, streaming e entretenimento. Sempre em busca de boas histórias para contar.
O que vivemos na infância afeta quem somos como adultos, e a pobreza infantil, os poucos recursos e as dificuldades também podem ser responsáveis pelo desenvolvimento de determinadas habilidades
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Muitas experiências que vivemos nos primeiros anos de vida podem ter efeitos que se prolongam até a idade adulta. Um exemplo claro são os traumas que, como explicou o psicólogo Manuel Hernández Pacheco à Infosalud, podem continuar nos acompanhando mesmo depois de crescidos.

“Embora sejamos adultos, ainda conservamos dentro de nós uma criança que sofreu medos ou inseguranças, por exemplo. Essa criança continua conosco e, se esses traumas não foram superados, continuarão nos afetando na vida adulta”, explicou o especialista.

Crescer em meio a dificuldades financeiras é outro exemplo de experiência que pode deixar marcas duradouras. A pobreza e a falta de recursos durante a infância podem nos moldar profundamente, influenciando o desenvolvimento do cérebro e trazendo consequências para a saúde, a educação e os aspectos sociais e emocionais.

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E não é preciso ter vivido em situação de pobreza extrema para que isso aconteça. Uma infância marcada por dificuldades e pela necessidade de lidar com recursos limitados também pode contribuir para o desenvolvimento de determinados comportamentos e características que permanecem na vida adulta.

A simplicidade ganha outro valor

Quem cresce em uma época de dificuldades e com poucos recursos tende a perceber melhor o valor da simplicidade e, mesmo quando chega à vida adulta e passa a ter condições de se permitir alguns luxos, pode continuar priorizando a praticidade.

Ter tido apenas o necessário durante a infância — e, às vezes, nem isso — também pode fazer com que essas pessoas valorizem mais aquilo que conquistaram ao longo da vida.

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Isso, claro, não significa romantizar o crescimento na pobreza, muito pelo contrário. Como explicou o filósofo Francisco Checa: “O empobrecimento, em suma, não é belo em lugar algum, nem em momento algum. A pobreza não é ética nem estética”.

Esse traço, aliás, pode ser ensinado a uma criança sem que ela precise passar pela falta de um copo de leite para beber.

Por exemplo, é recomendável evitar a “síndrome da criança hiperpresenteada”, pois, embora tenhamos recursos suficientes para dar dezenas de presentes aos nossos filhos, o excesso superestimula as crianças e reduz seu nível de tolerância à frustração.

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Além disso, como apontou María Gómez, terapeuta infantil, isso limita sua fantasia, faz com que percam a capacidade de se encantar e desenvolve antivalores que podem provocar comportamentos egoístas e consumistas.

A falta de recursos pode estimular a criatividade

Há um famoso ditado espanhol que diz que “A fome aguça a criatividade”. Mas o ideal seria que ninguém precisasse passar por dificuldades para desenvolver essa habilidade.

Quando uma criança cresce em um ambiente com poucos recursos, situações cotidianas podem ensiná-la a encontrar novas utilidades para aquilo que já tem. Consertar brinquedos quebrados em vez de comprar outros, por exemplo, ou aproveitar os ingredientes de uma refeição para preparar outros pratos são formas de aprender a se virar com o que está disponível.

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Essas experiências podem ensinar que é possível aproveitar melhor os recursos que já temos e, com um pouco de imaginação e criatividade, prolongar a vida útil das coisas sem entrar em um ciclo de consumismo.

A criatividade está relacionada à imaginação na hora de resolver problemas da vida cotidiana, e o fato é que não importa se temos ou não recursos: podemos ensinar e cultivar isso nas crianças mesmo tendo seis zeros na conta bancária.

Uma das maneiras mais simples é, por exemplo, reduzir o número de brinquedos com os quais nosso filho pode brincar. Segundo a Psychology Today, “Se há menos brinquedos, as crianças brincam com eles por mais tempo e de maneira mais imaginativa”.

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As dificuldades podem aumentar a empatia

Um estudo da Universidade de Berkeley descobriu que pessoas que cresceram em lares de baixa renda são melhores em interpretar as emoções dos outros quando comparadas a pessoas de ambientes mais ricos. Ou seja, as crianças que tiveram menos oportunidades se tornaram adultos mais empáticos.

A empatia é justamente a capacidade de compreender e compartilhar sentimentos, algo fundamental na hora de nos relacionarmos, mas ela também está ligada à solidariedade.

Ser solidário implica ser generoso e compassivo com aqueles que precisam de ajuda e, quando você precisou disso durante a infância e cresceu, entende melhor do que ninguém a situação dessas pessoas.

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O que possuem passa a ser mais valorizado

Quem passou por dificuldades tende a valorizar o que tem, por menor ou insignificante que isso possa parecer aos outros. E atenção: quando falamos de gratidão, não estamos falando apenas de agradecer por ter um trabalho que nos permita comer frango assado aos domingos. Estamos falando de ser grato no sentido mais amplo da palavra.

A gratidão não consiste apenas em agradecer pelas coisas materiais, mas também por todas as pequenas coisas do dia a dia, como a possibilidade de jantar em família, seu gato ou o fato de ter saúde para seguir em frente.

Essa maneira de apreciar a vida sob uma perspectiva positiva é algo que todos deveríamos valorizar, porque ser grato nos torna mais felizes.

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O trabalho ganha um significado diferente

Quem cresce em um ambiente sem abundância pode aprender desde cedo o valor do trabalho e da determinação. Quando uma criança precisa lidar com dificuldades e entende que os recursos são limitados, pode desenvolver uma percepção diferente sobre o esforço necessário para conquistar aquilo que deseja.

A ideia de que nada é de graça e de que é preciso se empenhar para alcançar determinados objetivos pode acompanhá-la também na vida adulta.

O sucesso é alcançado por meio de esforço, constância e perseverança. Por isso, é importante permitir que as crianças tenham autonomia para compreender o valor do próprio esforço, ensiná-las a lidar com a frustração e ajudá-las a não desistir diante da primeira dificuldade.

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As adversidades ajudam a construir resiliência

A vida não é um mar de rosas para ninguém, mas quem vivencia a pobreza pode desenvolver uma resiliência maior justamente por precisar lidar com adversidades desde a infância.

O ideal, no entanto, seria que essa capacidade pudesse ser cultivada sem que a criança precisasse passar por situações de privação e dificuldade, algo que os pais nórdicos procuram ensinar aos filhos.

Essa capacidade tende a permanecer na vida adulta e se manifesta na maneira como a pessoa enfrenta os desafios e se recupera dos contratempos. É uma força construída ao longo do tempo, que demonstra a capacidade de suportar e superar obstáculos.

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A riqueza passa a significar mais do que dinheiro

Riqueza significa algo diferente para cada pessoa que você perguntar. Para aqueles que cresceram sem recursos, riqueza significa algo diferente do que para aquelas crianças que foram criadas entre babás, viagens aos Alpes e escolas particulares que custam caro.

No caso daqueles que tiveram menos recursos, riqueza não está apenas no dinheiro: também está na sensação de segurança e estabilidade, nas oportunidades que surgem e na liberdade.

Se você cresceu com o mínimo, quando se torna adulto, busca não ter estresse financeiro, e a felicidade financeira assume um significado muito diferente, porque sabe que riqueza também significa não permitir que o dinheiro — e a falta dele — tire sua paz de espírito.

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A experiência da escassez favorece o consumo consciente

Quando uma pessoa cresce com recursos limitados, pode aprender desde cedo a importância de administrar o dinheiro com sabedoria. Isso pode fazer com que se torne mais consciente dos próprios gastos, economize mais e desenvolva uma relação mais cuidadosa com o consumo.

Mesmo quando a situação financeira melhora na vida adulta, a prudência adquirida durante os períodos de dificuldade pode permanecer.

Quem passou anos precisando escolher cuidadosamente onde gastar tende a saber melhor onde é possível economizar, quais despesas são realmente necessárias e quais podem ser evitadas. Essa habilidade prática pode contribuir para uma maior estabilidade financeira não apenas quando as coisas vão bem, mas também diante de possíveis dificuldades no futuro.

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E não se trata de ser mesquinho, mas de tomar decisões conscientes, priorizando as necessidades em vez dos desejos e os benefícios de longo prazo em vez das gratificações imediatas.

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