Lembrado como um dos maiores atores da história da dramaturgia brasileira, Raul Cortez acumulou personagens marcantes no teatro, no cinema e na televisão.
Em 2002, porém, o artista viu seu nome ganhar espaço no noticiário por um motivo que ia além da ficção. Enquanto interpretava Genaro, um dos protagonistas da novela "Esperança", da TV Globo, ele foi chamado às pressas pela emissora para prestar esclarecimentos após aparecer em uma propaganda eleitoral do então candidato à Presidência da República José Serra (PSDB). Eita!
O episódio, que hoje é pouco lembrado, foi revelado pela Folha de S.Paulo em reportagem publicada em 29 de agosto de 2002.
Na noite de 27 de agosto de 2002, o programa eleitoral gratuito de José Serra exibiu imagens de um jantar realizado na casa de Cortez em apoio à candidatura do tucano. Além de mostrar o ator durante o encontro, a propaganda ainda citava seu nome.
No dia seguinte, segundo informou a Folha, Raul precisou interromper as gravações da novela para conversar com um diretor da Globo, ligado diretamente à direção-geral da emissora. O ator afirmou que não havia autorizado a equipe da campanha a utilizar sua imagem no horário eleitoral.
A reportagem também ouviu Nelson Biondi, marqueteiro de José Serra, que confirmou ter recebido um telefonema de Raul Cortez pedindo que as imagens não fossem mais exibidas. "Mostramos fatos da agenda de Serra e, no meio disso, estava registrada a festa do Raul. Ele falou comigo. Já pedi desculpas, e não vamos repetir a imagem", declarou ao veículo.
Naquele momento, o artista estava diariamente na tela da Globo como Genaro, pai do protagonista Toni, interpretado por Reynaldo Gianecchini, em "Esperança", novela das nove escrita inicialmente por Benedito Ruy Barbosa. Segundo o jornal, a emissora proibia que atores que estivessem atuando em novelas inéditas participassem do horário eleitoral ou tivessem sua imagem explorada por campanhas políticas.
Por isso, a exibição da propaganda contrariava as normas internas da empresa e motivou o pedido de explicações ao ator. A situação também envolveu outros nomes presentes no jantar. Regina Duarte, Gabriela Duarte e Fulvio Stefanini não aceitaram gravar depoimentos para a campanha quando perceberam a presença da equipe responsável pelas filmagens.
Apesar da polêmica, o episódio não representou um rompimento entre Cortez e Serra. Meses depois, durante o segundo turno das eleições presidenciais, o ator voltou a manifestar publicamente seu apoio ao candidato do PSDB. Em outra reportagem publicada pela Folha, em outubro de 2002, ele saiu em defesa de Regina Duarte - que também havia participado da campanha tucana - e criticou o receio de artistas em assumir posicionamentos políticos.
Na ocasião, afirmou ao jornal que o jantar realizado em sua residência "não vingou porque as pessoas têm medo de dizer o que pensam e isso é um cacoete da ditadura". Essas declarações ajudam a contextualizar que a controvérsia não estava relacionada ao apoio político de Raul Cortez, mas, segundo sua versão apresentada à época, ao uso de sua imagem na propaganda eleitoral sem autorização.
Quando a polêmica veio à tona, "Esperança" ocupava a principal faixa de dramaturgia da Globo. Exibida entre 2002 e 2003, a novela sucedeu "O Clone" e foi ambientada no início da década de 1930, acompanhando a imigração italiana para o Brasil em meio às transformações políticas e econômicas do período.
Na trama, Raul Cortez interpretava um pianista talentoso, mas frustrado profissionalmente, que depositava no filho Toni o sonho de alcançar o sucesso que nunca conseguiu conquistar. O personagem integrava o núcleo central da história e fazia parte dos principais conflitos familiares da primeira fase da novela.