A trajetória de superação de Robert Downey Jr. é hoje celebrada como uma das mais emblemáticas de Hollywood. Vencedor do Oscar de Melhor Ator Coadjuvante por "Oppenheimer" em 2024 e protagonista de uma das maiores franquias do cinema com "Homem de Ferro", o ator passou décadas lutando contra a dependência química - um problema que começou ainda na infância, dentro de casa, com influência direta do próprio pai, o cineasta Robert Downey Sr.
O episódio, pouco conhecido por parte do público, voltou a ganhar destaque com o documentário "Sr.", disponível na Netflix, no qual o artista revisita a relação familiar e os impactos do contato precoce com drogas.
Embora o documentário traga o tema à tona, a confissão mais crua de Robert Downey Sr. aconteceu no ano 2000. Em entrevista à Vanity Fair, ele abriu o jogo sobre a escolha errada de dar drogas ao filho após flagrá-lo bebendo vinho, ainda criança.
"Estávamos todos sentados, fumando maconha e jogando pôquer no antigo loft do West Village, e Robert estava me olhando de um jeito estranho - Robert sempre foi observador de tudo, mesmo desde muito jovem. E eu disse: 'Sabe, você devia experimentar um pouco disso em vez de beber.' Passei um baseado para ele", relembrou na época. "E de repente eu percebi que tinha cometido um erro terrível e estúpido", lamentou.
Na mesma ocasião, o cineasta refletiu sobre a gravidade do ato: "Dar um trago de maconha para uma criança pequena só para fazer graça. A história continua se repetindo. A essa altura, você pensaria que Robert era o traficante de Jimmy Cliff aos 8 anos de idade. Nunca vou me perdoar, mas Robert e eu já resolvemos isso, e ele me disse: 'Pai, eu não sou uma vítima. Não culpo ninguém'".
Essa dinâmica familiar é revisitada no documentário da Netflix, onde pai e filho refletem sobre aquele período por telefonema. "Sabe, acho que seria uma negligência nossa não discutirmos o efeito disso em mim", disse Robert ao pai, que respondeu: "Nossa, eu adoraria evitar essa conversa".
Em trechos recuperados no filme, Downey Sr. admite: "Muitos de nós fazíamos coisas e achávamos que seria hipócrita não deixar nossos filhos participarem da maconha e dessas coisas. Então achamos que era engraçado deixá-los fumar e tudo mais. Foi um movimento idiota da nossa parte, de muitos de nós, compartilhar isso com nossos filhos".
Diante das câmeras, o pai foi direto sobre seu próprio vício em cocaína e maconha: "Loucura total. Meu conselho para mim mesmo mais jovem seria: 'Não use drogas'".
O astro da Marvel relembrou que o vício se intensificou quando atuou em "Abaixo de Zero" (1987).
"Foi uma época selvagem. Estávamos todos alterando nossa consciência com substâncias. Eu estava meio que jogando um jogo de auto-conforto ou simplesmente me mantendo drogado, em vez de lidar com o fato de que as coisas tinham saído um pouco dos trilhos", desabafou. "Honestamente, mais do que qualquer outra coisa, olho para trás e penso: 'É chocante que um único filme tenha saído completo'".
Mais recentemente, em conversa com o Deadline, Downey Jr. trouxe uma visão mais analítica sobre o vício do pai, tratando-o como uma doença. Para ele, o tema ainda é um tabu: "Ainda acho que existe uma parcela da nossa cultura que considera isso uma fraqueza moral. E também, você se sente mal por todas as loucuras que acontecem, então entra o botão da culpa. Ninguém quer admitir a derrota completa ao tentar lidar com algo como alcoolismo ou dependência".
O ator, que revelou ter levado mais 20 anos para "colocar a própria vida em ordem", encerrou com uma ponta de melancolia sobre o legado do pai, que faleceu em 2022: "Não sei se meu pai algum dia fez as pazes com esses muitos anos perdidos...".
A relação com drogas evoluiu para uma dependência severa nos anos 1990, período em que o ator enfrentou prisões sucessivas entre 1996 e 2001 por posse de substâncias ilegais e violação de condicional. A virada definitiva aconteceu em 2003, com apoio de tratamento, terapia e o suporte fundamental de sua esposa, Susan Downey.
Após a recuperação, Downey Jr. reconstruiu a carreira até o marco de "Homem de Ferro" (2008). Hoje, consolidado e premiado, ele é o maior símbolo de que é possível superar erros familiares e recaídas públicas para um recomeço histórico na cultura pop.