A forte ventania que atingiu o Rio de Janeiro nesta quarta-feira (29), com rajadas acima de 100 km/h, deixou um rastro de transtornos: árvores caídas, apagões, transporte público paralisado e milhares de pessoas tentando voltar para casa em meio ao caos.
Mas, além dos impactos visíveis, um efeito menos conhecido também costuma chamar a atenção durante episódios como esse: a sensação de irritabilidade, ansiedade, dificuldade para dormir e até falta de concentração relatada por algumas pessoas.
A ciência ainda investiga essa relação, mas especialistas afirmam que ventos intensos podem funcionar como um fator de estresse para o organismo - embora não sejam capazes, sozinhos, de provocar transtornos psicológicos.
Um dos principais nomes que investigam essa relação é o psiquiatra Antonio Bulbena, professor da Universitat Autònoma de Barcelona e especialista em ansiedade. Em entrevista ao programa La Ventana, da Cadena SER, maior rede de rádio da Espanha, ele explicou que o impacto do vento sobre o comportamento humano tem fundamentos reais, embora seja um tema complexo do ponto de vista científico.
"Era um assunto muito popular, mas pouco estudado pela ciência", disse ele ao veículo. Segundo Bulbena, as pesquisas começaram justamente ouvindo pessoas que convivem diariamente com ventos intensos. "Primeiro perguntamos à população o que ela sentia, porque ninguém sabe melhor do que quem vive essa realidade".
A partir desses relatos, a equipe encontrou padrões semelhantes entre os participantes. "Começamos a encontrar alguns efeitos: a tramontana deixava as pessoas inquietas e mais nervosas", explicou.
A tramontana é um vento frio e intenso típico do nordeste da Espanha e do sul da França. Apesar de o fenômeno ser regional, o especialista destaca que a discussão não se limita a esse tipo específico de vento, mas aos efeitos que episódios de ventania podem provocar em determinadas pessoas.
Para Bulbena, o vento não deve ser visto apenas como um elemento incômodo da paisagem. Em alguns casos, ele pode provocar respostas físicas e emocionais perceptíveis.
As conclusões apresentadas pelo pesquisador coincidem com uma percepção comum entre moradores de regiões muito ventosas: mudanças de humor, irritabilidade e dificuldade para dormir durante períodos de vento intenso.
Ao mesmo tempo, ele afirma que o fenômeno não produz apenas efeitos negativos. "Para estudar um fenômeno que tem uma carga cultural tão forte, também é preciso considerar seu lado positivo",
Nos estudos conduzidos por sua equipe, alguns participantes relataram experiências curiosas. Um, segundo ele, expressou: "Depois de dois ou três dias, ele me enche de energia, mas no terceiro dia me deixa completamente exausto". Segundo o psiquiatra, isso mostra que o vento pode tanto estimular quanto desgastar o organismo: "Ele tem essa capacidade de impulsionar".
Na avaliação de Bulbena, parte desse efeito pode estar ligada a fatores físicos provocados pela ventania. "O barulho é muito incômodo", constatou, lembrando ainda que o vento altera até mesmo o comportamento dos animais! "Quando venta, eles ficam muito mais incomodados do que quando chove".
Em cidades muito expostas, acrescenta o pesquisador, as consequências podem ultrapassar o aspecto psicológico. "Aqui o vento pode até derrubar as pessoas", expressou.
Entre todos os sintomas estudados, Bulbena afirma que a ansiedade é o campo em que surgem os indícios científicos mais consistentes.
Segundo ele, pesquisas conduzidas por sua equipe observaram um aumento de atendimentos relacionados a crises de pânico durante determinados episódios de vento quente. "Observamos que, durante o outono, aumentavam os atendimentos de pessoas com ataques de pânico nas emergências quando soprava um vento quente vindo do oeste".
Ainda assim, o especialista faz questão de evitar conclusões simplistas. "Nenhum fenômeno meteorológico atua sozinho; sempre existem outros fatores", destacou. Ele explica que aspectos biológicos, culturais e sociais também influenciam a maneira como cada indivíduo reage às mudanças do clima, tornando impossível atribuir alterações emocionais exclusivamente ao vento.
Nesta quarta-feira (29), o Rio de Janeiro registrou rajadas superiores a 100 km/h, com pico de 105,5 km/h no Galeão, segundo o Sistema Alerta Rio. A ventania provocou queda de árvores, postes e estruturas, deixou mais de 900 mil consumidores sem energia elétrica, interrompeu o funcionamento de diferentes modais de transporte e levou autoridades a orientarem a população a evitar deslocamentos desnecessários e áreas abertas.
O episódio foi provocado pela aproximação de uma frente fria pelo oceano, responsável por intensificar os ventos em boa parte do litoral fluminense.
No mesmo dia, o governo federal também anunciou um pacote de R$ 1,33 bilhão para enfrentar possíveis impactos do El Niño, fenômeno climático que aumenta a probabilidade de eventos extremos, como ondas de calor, secas, enchentes e incêndios, dependendo da região do país.