Desde que colocou os pés no "BBB 26", Ana Paula Renault virou muito mais do que uma participante polêmica de reality show! Ela se tornou, novamente, um símbolo de incômodo e não só dentro da casa. Fora dela, o que se vê é uma escalada de hostilidade que ultrapassa a crítica comum de jogo e entra em um terreno mais perigoso: o do ódio direcionado, especialmente por homens.
O episódio mais grave até agora veio de fora do programa. Uma internauta resgatou um suposto tweet de André Luiz Frambach, ator e marido de Larissa Manoela, em 2016, dizendo que alguém deveria dar "um soco na cara" de Ana. Recentemente, ele também teceu várias críticas à sister, chegando a chamá-la de "mau-caráter" (tweet apagado). "Ela é a prova da história né, quer ser a salvadora, com seus súditos…", escreveu em outro post, que segue em seu perfil.
As declarações geraram indignação entre o público e levantaram um debate que vai muito além do reality... por que uma mulher como Ana Paula desperta reações tão violentas?
Para o doutor em Comunicação Cris Gonzatti, professor e pesquisador de mídia, gênero e sexualidade, a resposta não está no jogo em si, mas em algo muito mais profundo.
Em um vídeo que viralizou no Instagram, onde soma mais de 96,6 mil seguidores no perfil @chrisgonzatti, o pesquisador começa separando as coisas: não gostar de um participante de reality é normal. O problema, segundo ele, é quando a antipatia vira ódio e pior, quando esse ódio se transforma em discurso de agressão. “Isso não é opinião. Isso é sintoma social de algo muito grave”, afirma.
Para Cris, Ana Paula incomoda porque se comunica acionando códigos que a sociedade ainda associa à masculinidade: ela é direta, confrontacional, irônica, segura do que diz e pouco preocupada em suavizar a própria fala para parecer “agradável”. E aí mora o conflito!
O doutor em Comunicação explica que masculino e feminino não são qualidades naturais grudadas no corpo, mas repertórios de comportamento. Homens podem ser sensíveis. Mulheres podem ser firmes. O problema é que, quando uma mulher ocupa um lugar historicamente permitido aos homens, o desconforto aparece. “Um homem que fala duro é visto como líder autêntico. Uma mulher que fala do mesmo jeito vira agressiva, arrogante, exagerada".
Dentro da casa, isso se traduz em falas recorrentes. Ana Paula é chamada de “insuportável”, “manipuladora”, “ditadora”, “do mal”. Participantes como Matheus e Brígido chegaram a dizer que ela cria cenários para que eles saiam como “machos escrotos” - como se a simples postura firme dela fosse uma armadilha!
Curiosamente, outros brothers já destacaram que Ana Paula não grita, não xinga e não perde o controle. Ainda assim, a reação contra ela é intensa. Para Cris Gonzatti, isso acontece porque ela bagunça as normas de gênero e normas de gênero não gostam de ser bagunçadas.
Além da questão de gênero, há um outro ponto central: a política.
Ana Paula é uma mulher branca, cis, heterossexual e de classe média alta... alguém que poderia, facilmente, adotar um discurso neutro e confortável. Mas ela escolhe não fazer isso. Ela fala de classe, gênero, raça, sexualidade e desigualdade. E isso desmonta uma fantasia muito comum: a de que esses temas só dizem respeito a quem sofre diretamente com eles! “Ela gera raiva porque mostra que consciência social não é obrigação só de quem é oprimido”, explica Cris.
Não por acaso, os ataques mais duros dentro da casa vêm de homens associados a discursos conservadores. Termos como “socialista de iPhone”, “elite brasileira” e acusações de que Ana Paula “usa negros, pobres e LGBTs” aparecem com frequência, sempre tentando deslegitimar a fala dela, não debatê-la.
Alguns participantes chegaram a comparar Ana Paula a Karol Conká, uma das figuras mais rejeitadas da história do BBB. Outros disseram sentir “energia ruim”, chamaram a sister de “pessoa do mal” e insinuaram que ela está ali apenas para fazer campanha política.
Esse tipo de discurso é clássico quando se quer desumanizar alguém. Quando a mulher deixa de ser vista como pessoa e passa a ser tratada como ameaça, qualquer ataque parece justificável.
Para Cris Gonzatti, o ponto final da análise é claro: o ódio direcionado a Ana Paula Renault não é, de fato, sobre ela. “É o pânico diante de mulheres que não pedem permissão, que não suavizam a própria inteligência, que não performam submissão emocional".
Esse comportamento não acontece só no BBB. Ele se repete em ambientes de trabalho, na política, nas redes sociais. O que muda é a visibilidade e o fato de que cada vez mais pessoas se recusam a tolerar esse tipo de discurso. Talvez seja exatamente isso que mais incomode. Porque, pela primeira vez, a ordem de gênero percebe que não está mais sendo obedecida em silêncio. Assista à análise:
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