Em 2009, Rachel Ripani raspou a cabeça para interpretar uma mulher com câncer de mama em "Caras & Bocas", novela de Walcyr Carrasco. A história de Tatiana emocionou o público, mas a atriz só teve dimensão do alcance daquela personagem quando começou a receber mensagens de mulheres que enfrentavam a doença.
Algumas encontraram na trama o acolhimento que não tiveram durante o próprio tratamento. Outras dividiram relatos dolorosos de abandono e solidão...
Quase duas décadas depois, Rachel continua envolvida em discussões sobre a realidade feminina, agora também fora dos palcos e das telas. Uma das articuladoras do Levante Mulheres Vivas, movimento de enfrentamento à violência contra as mulheres, ela transformou experiências pessoais em combustível para o ativismo! Maternidade, etarismo, desigualdade profissional e misoginia estão entre os assuntos que passaram a ocupar espaço em sua atuação pública.
Em entrevista ao Purepeople, a atriz relembrou a repercussão de Tatiana, contou como se aproximou do feminismo e explicou a rapidez com que o Levante ganhou força nas ruas. Também fez uma reflexão sobre os desafios de conciliar maternidade e carreira e sobre o papel social da arte!
Quando aceitou interpretar Tatiana em "Caras & Bocas", Ripani sabia que estava diante de uma história super importante. A personagem recebeu o diagnóstico de câncer de mama, enfrentou os efeitos do tratamento e decidiu raspar a cabeça. A atriz conta que seguiu o pedido do autor, Walcyr Carrasco, e se entregou à trama, mas não esperava a quantidade de mulheres que se aproximariam dela depois da exibição das cenas.
"Eu tinha noção da importância de contar essa história e segui totalmente o pedido do autor, de embarcar de cabeça. Eu não imaginava o quanto eu ia ser acolhida e o quanto muitas mulheres iam falar comigo e contar suas histórias", recordou.
"Ouvi muitas histórias de mulheres que foram abandonadas como a personagem foi durante o tratamento de câncer. Histórias muito difíceis para elas, mulheres que se sentiram muito acolhidas por terem a visibilidade na história, na novela, e que precisavam desse espaço", contou.
Um dos relatos ficou especialmente marcado na memória da atriz: mulheres que, mesmo passando mal durante a quimioterapia, tentavam esconder o sofrimento dos próprios filhos. "Mulheres que estavam trocando os lençóis de madrugada, depois de terem sido abandonadas pelo marido, para os filhos não perceberem que elas estavam passando mal enquanto faziam quimioterapia", relatou.
A dimensão dessas histórias também mudou a maneira como Rachel enxergava a experiência de quem recebe um diagnóstico de câncer de mama. Ela percebeu que a novela havia oferecido a algumas mulheres uma sensação de acolhimento que faltou na vida real. "Eu não tinha percepção total do impacto. Foi muito emocionante e, por vezes, difícil, por ser muito emocionante. Uma emoção por vezes muito triste, de solidão, de abandono, de dificuldade", afirmou.
A atriz também passou a compreender melhor as possibilidades de recuperação após o diagnóstico. "Eu descobri que é um dos cânceres que, se descoberto mais cedo, tem uma das maiores taxas de cura e de normalidade na vida posterior. Então, ele não é um fim de um caminho. É um grande susto que exige uma batalha, mas muitas mulheres sobrevivem e ficam bem depois dele", refletiu.
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A relação de Rachel com o feminismo também foi construída aos poucos. A artista admite que, durante muito tempo, teve dificuldade de se identificar com o movimento. Na percepção dela, algumas discussões pareciam agressivas ou distantes de sua realidade.
"Eu tinha mesmo, também como muitas mulheres, dificuldade de me intitular feminista. Achava que o movimento parecia agressivo muitas vezes, parecia acadêmico, parecia distante da minha realidade vivida", explicou.
A mudança veio com experiências que fizeram Rachel perceber como determinadas desigualdades atravessavam sua vida. "Eu me vi com 40 e poucos anos, passando por uma separação litigiosa, sobrecarregada na maternidade, percebendo que a economia do cuidado não prioriza mulheres e não dá visibilidade para o tanto de trabalho que a gente tem. Chegando ao teto de vidro, percebendo o etarismo porque eu já estava com 40 e tantos", relatou.
Foi nesse momento que sentiu necessidade de compartilhar suas experiências com outras mulheres. Em 2020, começou a falar sobre feminismo nas redes sociais, em um trabalho que chama de "feminismo conciliatório". A intenção era ajudar outras mulheres a reconhecer situações que ela própria havia normalizado.
"Eu falei: não dá. Eu preciso falar disso agora. Eu preciso falar com outras mulheres e, quem sabe, comentando com outras mulheres a minha experiência, essas outras mulheres possam não cair em armadilhas em que eu caí, não normalizar as situações que eu normalizei e perceber que é algo sistêmico", afirmou.
"A gente precisa lutar enquanto um movimento juntas para banir, para mudar perspectivas coletivas, para que a gente esteja num lugar de mais equidade", defendeu.
O ativismo que começou nas redes sociais ganhou outra dimensão com o Levante Mulheres Vivas. Rachel conta que a mobilização nasceu de uma iniciativa que cresceu muito mais rápido do que ela imaginava.
Depois de publicar um vídeo convidando o público para uma manifestação contra a violência às mulheres, a atriz esperou que algum movimento assumisse a convocação. Ela acabou recebendo uma mensagem da atriz Olivia La Gatto, com quem ainda não tinha contato. As duas decidiram organizar o ato.
A primeira reunião aconteceu de forma online, em uma plataforma. O convite foi divulgado por meio de um link nos stories e reuniu 120 pessoas. Naquele mesmo dia, grupos começaram a ser criados espontaneamente em diferentes partes do Brasil. "Os grupos lotavam, as comunidades lotavam, não cabiam mais pessoas do tanto de pessoas que queriam se engajar e se mobilizar ali", lembrou.
"Ali eu percebi que seria grande e que era uma coisa que, na verdade, estava atendendo a algo que todo mundo estava sentindo ao mesmo tempo: que a gente precisava olhar para a violência contra a mulher e para o feminicídio com mais seriedade, com uma emergência nacional mesmo", afirmou.
A velocidade do movimento também impressionou a atriz. Segundo ela, apenas quatro dias se passaram entre a primeira reunião e a manifestação na Avenida Paulista, em São Paulo. Rachel conta que subiu em um carro de som para falar com cerca de 35 mil pessoas. "Foi realmente muito impressionante a velocidade de como o digital acelera a mobilização", avaliou.
A atuação do Levante também alcança o ambiente digital. Entre as iniciativas relacionadas ao combate à misoginia está o Manual da Machosfera, projeto que propõe discutir comunidades virtuais que disseminam discursos misóginos e a maneira como esses espaços atraem meninos e jovens.
Para Rachel, enfrentar a violência de gênero exige olhar para além da punição dos agressores. Ela acredita que um dos maiores desafios está em discutir os comportamentos e valores que fazem com que diferentes formas de violência sejam tratadas como algo normal. Ripani cita a educação desde a infância como um caminho para mudar essa realidade.
"Um dos grandes obstáculos é a gente poder falar sobre esse caldo cultural que faz com que a gente normalize violências. Também acho que um obstáculo é a gente focar excessivamente na punição sem perceber que a Lei Maria da Penha, por exemplo, prevê educação como uma base, um pilar para a gente mudar como uma criança, um menino ou uma menina percebe a violência contra a mulher desde a escola", declarou.
A atriz também chama atenção para a influência das plataformas digitais e dos algoritmos na circulação de discursos de ódio. Para ela, compreender o funcionamento desses ambientes é parte do enfrentamento à misoginia.
"Se a gente não focar em dar caminhos para as mulheres e para os homens para que eles se vejam e vejam o mundo de uma maneira diferente, a gente nunca vai mudar o resultado", afirmou.
As experiências pessoais que aproximaram Rachel do feminismo também mudaram sua maneira de enxergar a relação entre maternidade e carreira. Ao falar sobre o assunto, a atriz não esconde o pessimismo em relação às condições oferecidas às mulheres que têm filhos e precisam manter a mesma trajetória profissional.
A divisão desigual das responsabilidades familiares faz com que muitas mães percam oportunidades importantes... não se trata de conciliar horários, muitas continuam responsáveis por resolver questões dos filhos mesmo durante o expediente!
"Hoje eu não vejo como você consegue ter filhos e manter a mesma [trajetória profissional], por conta da sobrecarga materna e de como a economia do cuidado é feita e como a gente futuramente ainda coloca o cuidado prioritariamente sobre as costas da mulher", avaliou.
Rachel cita situações cotidianas que podem parecer pequenas, mas que, acumuladas, afetam o desenvolvimento profissional. Enquanto alguns homens conseguem permanecer em encontros de trabalho depois do expediente ou viajar a negócios, muitas mulheres precisam sair no horário para buscar os filhos, acompanhar consultas médicas e resolver problemas escolares.
"Ela perde o happy hour e aquela esticadinha que daria aquele contato que poderia fazer ela conseguir aquele cliente. Ela perde de poder fazer aquela viagem de trabalho porque tem que sair assim que acaba o trabalho para pegar a criança na escola", exemplificou.
"Você está com a sua atenção dividida. É uma coisa que é uma estrutura cultural: mamãe e papai, papai só para trabalhar, a mamãe fica em casa. Em um tempo que o homem vai, sai e desliga tudo para focar no trabalho, e a mulher não. A mulher fica no trabalho, mas o tempo inteiro está no duplo", explicou.
Na visão de Rachel, é necessário dividir melhor as responsabilidades para que homens e mulheres tenham condições mais equilibradas de construir suas carreiras. Ela também lembra que a desigualdade aparece na maneira como mulheres são avaliadas profissionalmente, seja pela idade, pela roupa ou pela percepção de que seriam menos capazes de ocupar posições de liderança.
"Eu não vejo a gente ainda com equidade, com chances iguais. Mas isso não quer dizer que não vale a pena", ponderou.
A crítica à estrutura profissional não significa que Rachel veja a maternidade como uma experiência negativa. Muito pelo contrário! Ela afirma que foi uma experiência incrível e que continua aprendendo com o processo. A atriz também passou a repensar o espaço que o trabalho ocupa em sua vida.
"Para mim, é importante descentralizar o trabalho como centro da minha vida e talvez me centralizar. Centralizar no início da minha família, mas depois da minha experiência de vida ser uma pessoa mais feliz, uma pessoa mais completa, que tem o direito de descansar também, viajar e fazer outras coisas e ter um mundo para além da próxima conquista profissional", refletiu.
Rachel diz que continua gostando de trabalhar e deseja seguir exercendo sua profissão. O que mudou foi a percepção de que a vida não pode girar apenas em torno da próxima conquista. "Trabalho e fazer meu trabalho com dignidade é uma coisa de que eu gosto muito e eu gostaria muito de continuar exercendo até o fim da minha vida", acrescentou.
Ao olhar para a própria carreira, Rachel identifica uma ligação entre seus trabalhos como atriz, diretora e produtora e sua atuação no ativismo. Para ela, o artista tem uma função que vai além de entreter, ele também deve provocar reflexões e apresentar ao público outras maneiras de enxergar o mundo. "O artista é um espelho do seu tempo. Ele mostra, reflete e propõe questionamentos para sua sociedade. Essa é a função social do artista", afirmou.
A atriz conta que tem dificuldade de se envolver em projetos cujas ideias não correspondam às suas convicções. Como exemplo, revelou que chegou a recusar a possibilidade de fazer um teste para o filme "Dark Horse", sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, depois de ler uma cena e perceber que discordava da tese apresentada.
"Eu não posso fazer esse teste porque eu não concordo com essa tese aqui que está sendo passada nesse filme", contou sobre a decisão. "Mais importante do que isso para mim é a minha integridade pessoal e artística. Então eu faço o que eu acredito", complementou.
"Estou sempre fazendo perguntas como artista e tenho muito orgulho das perguntas que a gente faz, porque elas propõem novas maneiras de o público olhar para si e para o futuro", concluiu.