A Copa do Mundo é a prova viva de que a união faz a força. No caso, os brasileiros, fãs ou não do futebol, torcem para a vitória do seu país.
Mas, além dos gols, da ansiedade e da emoção coletiva que tomam conta das famílias brasileiras, existe um outro aspecto silencioso acontecendo dentro das casas: o aprendizado emocional das crianças.
Nesta quarta-feira, 24 de junho, o Brasil entra em campo contra a Escócia pelo Mundial tentando manter a liderança e o embalo da competição.
Logo, o campeonato acaba funcionando como uma verdadeira sala de aula afetiva. Enquanto os adultos gritam, comemoram, reclamam ou sofrem diante da televisão, os filhos observam tudo atentamente, mesmo quando parecem distraídos.
E é justamente sobre isso que o Purepeople conversou com a psicóloga Fernanda Paiva. Segundo a especialista, o comportamento dos pais durante as partidas influencia diretamente a maneira como crianças e adolescentes aprendem a lidar com frustrações e vitórias.
“Assim como em diferentes situações do cotidiano social e familiar, crianças e adolescentes não só observam, como são impactados diretamente pelo comportamento dos adultos. Em se tratando de um grande evento como a Copa do Mundo, época em que as emoções enquanto torcedores acabam ficando pouco mais acaloradas pela efervescência coletiva que o futebol oferece, o comportamento dos adultos diante da vitória ou da derrota serve como um espelho direto para a educação emocional dos filhos por meio de um mecanismo chamado ‘aprendizado por modelagem’”, explica.
Ela ressalta ainda que o exemplo acaba ensinando muito mais do que discursos prontos.
“Isso ocorre porque as crianças aprendem a processar frustrações e conquistas observando como as figuras de referência lidam com esses mesmos sentimentos, ou seja, o exemplo ainda ensina mais do que se pensa.”
Mesmo assim, Fernanda Paiva alerta sobre como a reação aos acertos e erros podem impactar na criação dos filhos.
“Antes de tudo, devemos lembrar que Copa do Mundo é um evento passageiro, mas a forma como ensinamos nossos filhos a ganhar e a perder deixa marcas que eles levarão para toda a vida”, afirma Fernanda.
Para ela, o segredo está em transformar a experiência em algo educativo, valorizando não apenas o resultado, mas também o esforço e a disciplina. “O ideal é ensinar desde cedo, que o esporte assim como na vida é uma oportunidade de ganhar ou perder e que ambas situações sempre existirão em cada contexto cotidiano.”
A psicóloga destaca que até a derrota pode ser uma oportunidade emocional importante.
“A derrota de uma seleção é uma oportunidade valiosa para ensinar que ficar triste ou decepcionado é normal, mas que a forma como reagimos a isso é uma escolha. A criança deve entender que a frustração deve ser tolerável e que sentir raiva destrutiva não é o única comportamento possível para a perda.”
Outro ponto importante acontece quando jogadores choram em campo. As lágrimas de atletas durante a Copa muitas vezes emocionam adultos e também ajudam crianças a entenderem que vulnerabilidade não é fraqueza.
“Certamente essa quebra de paradigma diante da TV ajuda a formar um outro conceito nas novas gerações com mais consciência sobre as manifestações das emoções”, explica. Ela ainda fala algo importante: homens também devem mostrar seus sentimentos.
“Quando vemos um atleta de elite, com alta capacidade física e no auge do seu momento profissional expondo suas emoções em lágrimas, naturalmente essa cena transmite algumas ideias que desconstroem uma cultura ainda fechada ao mito de que ‘homem não chora’. Chora sim.”
Mas a especialista também faz um alerta importante. Quando jogos terminam em gritos, xingamentos ou atitudes agressivas dentro de casa, as crianças absorvem esses comportamentos como referência emocional.
“Sim, na psicologia e na pedagogia, isso é conhecido como aprendizado por modelagem ou aprendizagem social. As crianças funcionam como ‘esponjas’ e espelhos dos adultos com quem convivem.”
Por isso, Fernanda acredita que o foco principal da Copa dentro de casa deveria ser menos o resultado do jogo e mais a construção de memórias afetivas.
“Mudar o foco do ‘resultado da Copa’ para o ‘ritual do momento’. As crianças não vão se lembrar com precisão de qual jogador fez o gol ou do esquema tático, mas vão se lembrar de como se sentiram na sala de casa.”
Por fim, ela sugere pequenas tradições familiares durante os jogos, como, por exemplo, pintar o rosto, preparar comidas especiais, trocar figurinhas e criar momentos longe das telas.
“E a regra de ouro: o objetivo principal não é ver a seleção ser campeã, mas sim usar o futebol como um pretexto para estarem juntos, torcendo descontraídos e compartilhando afeto.”
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