A Copa do Mundo proporciona momentos positivos de pais e filhos com a troca de figurinhas do álbum. Por outro lado, uma possível derrota da Seleção brasileira no sonho do hexa - desejado desde 2006 - pode desencadear sensação de frustração nas crianças.
"A criança costuma viver a Copa de forma muito emocional e coletiva. Na psicanálise, falamos sobre identificação, que é quando a pessoa se reconhece simbolicamente em alguém ou em um grupo. A criança se identifica com a seleção, com os jogadores, com a torcida e até com o sentimento de união da família naquele momento", explica a psicóloga Louise Araújo ao Purepeople.
"Por isso, mesmo sem participar diretamente do jogo, ela pode sentir a derrota como algo pessoal. Além disso, existe o sentimento de pertencimento: ela percebe todos ao redor torcendo, criando expectativas e compartilhando emoções. Quando o Brasil perde, a criança também sente essa quebra de expectativa e pode experimentar tristeza, raiva ou frustração", enumera a profissional.
Nesses casos, cabe aos pais acolher o sentimento da criança sem algum tipo de julgamento. "Validar emoções é fundamental para o desenvolvimento emocional saudável. Frases como 'eu entendo que você ficou triste' ajudam a criança a perceber que sentir frustração faz parte da vida e não é algo errado", recomenda a psicóloga.
"Os pais podem, sim, compartilhar que também ficaram chateados, desde que isso seja feito de maneira equilibrada. A criança aprende observando como os adultos lidam com perdas e decepções. Quando os responsáveis demonstram tristeza sem exageros ou descontrole, acabam ensinando formas saudáveis de elaborar emoções difíceis", prossegue Louise.
"Passeios, brincadeiras, ou momentos de conexão em família também podem ajudar bastante", segure. "Não como uma tentativa de 'apagar' a tristeza, mas como uma forma de mostrar que existem outros espaços de prazer, segurança e afeto além daquele resultado esportivo", ressalta.
Em contrapartida, pais ou responsáveis têm as piores reações quando fazem pouco caso da emoção da criança ou ignoram o sentimento, por exemplo, de frustração. "Frases como 'isso é besteira', 'é só futebol' ou 'para de chorar por isso' podem fazer com que ela sinta vergonha dos próprios sentimentos", adverte. "Ignorar completamente o sofrimento também não é o ideal, porque a criança pode interpretar que suas emoções não têm importância ou que não deve expressá-las", completa a psicóloga.
"Por outro lado, também é importante evitar o extremo oposto: transformar a derrota em um grande drama familiar. Quando os adultos entram em descontrole, agressividade ou sofrimento exagerado, a criança tende a absorver essa intensidade emocional e pode ficar ainda mais angustiada", afirma.
E existe um tempo exato para a criança reagir à frustração por uma derrota na Copa do Mundo? Para a profissional, não, pois cada uma "possui um funcionamento emocional próprio e reage de forma diferente às perdas e decepções". "O mais importante é observar como ela evolui ao longo dos dias. Em geral, tristeza passageira, choro, irritação ou desânimo temporário são reações esperadas", prossegue.
Cabe, então, um alerta aos pais. "O sinal de atenção aparece quando o sofrimento se torna muito intenso ou persistente, trazendo mudanças importantes no comportamento, como alterações no sono, na alimentação, isolamento, crises frequentes de choro, irritabilidade excessiva ou dificuldade de voltar à rotina mesmo depois de vários dias", enumera Louise.
"Nesses casos, pode ser importante buscar ajuda psicológica para compreender o que aquela situação acabou mobilizando emocionalmente na criança. Muitas vezes, a derrota no futebol pode funcionar apenas como um gatilho para sentimentos mais profundos que ela ainda não consegue expressar com clareza", finaliza.