O álbum de figurinhas da Copa do Mundo 2026 tem o poder de unir pais e filhos de forma rara, em uma "herança afetiva". Mas, ao mesmo tempo, a psicologia alerta para um risco que responsáveis correm ao tentarem ajudar as crianças a completarem a coleção. E isso tem tudo a ver com a sensação de frustração.
"(Ver amigos fechando o álbum) Pode frustrar muito, e essa frustração é, na verdade, uma das melhores oportunidades de formação que um pai pode aproveitar. Desde que ele saiba o que está fazendo", alerta ao Purepeople, o psicanalista e especialista em comportamento humano Lucas Scudeler.
"O erro mais comum é o pai resolver o problema: comprar dez pacotes de uma vez, ou comprar as figurinhas que faltam pela internet só para o filho fechar. Isso tira da criança exatamente o que ela mais precisa aprender: que algumas coisas na vida não vêm rápido, que repetida faz parte, que o caminho é tão importante quanto a chegada", acrescenta o profissional.
Aliás, o mercado dos cromos já vende, no exterior, figurinhas raras, como a de Cristiano Ronaldo, convocado pela sexta vez para a Copa do Mundo, assim como Messi, atacante argentino que está atrás do bicampeonato e de recordes históricos.
Na visão do especialista, o apoio à criança é fundamental, bem como a ressignificação diante das figurinhas repetidas. "O que funciona melhor é o pai sentar do lado e validar o sentimento primeiro: 'É chato mesmo, eu também ficaria frustrado'. Depois ajudar a criança a ver o problema com outros olhos: 'O que a gente pode fazer com essas repetidas? Tem quem queira trocar?'. Isso vira a frustração em estratégia", ensina Scudeler.
"A criança aprende três coisas ao mesmo tempo: que sentir frustração é normal, que esperar tem valor, e que problema se resolve com gente, não com dinheiro. "E uma última coisa importante: se os amigos estão fechando e o filho não, a tentação é comparar. "O Pedro já fechou, por que você não?". Isso destrói", adverte.
"O caminho oposto funciona: mostrar para a criança que o álbum dela tem uma história própria, com as figurinhas que ela conquistou trocando, esperando, juntando. Cada álbum é uma jornada diferente. E é exatamente isso que vai marcar a memória dela quando virar adulta", prossegue, acrescentando que se cria um mercado por conta das figurinhas.
Na visão do especialista, "o álbum cria uma economia paralela onde a moeda é a troca, e a troca exige conversa, olho no olho, negociação". "Você não consegue fechar o álbum sozinho - isso é desenho proposital. Então o vizinho vira parceiro, o colega de trabalho vira aliado, o desconhecido na fila do mercado vira possibilidade", avalia Scudeler indicando as três coisas que acontecem simultaneamente no cérebro humano.
"Primeiro, a surpresa de abrir o pacote ativa o mesmo circuito de recompensa de um presente - você não sabe o que vem, e essa incerteza é prazerosa. Segundo, completar uma seleção dá a sensação de progresso visível, que é uma das poucas coisas que o cérebro humano realmente celebra. E terceiro, a troca com outra pessoa libera o que os pesquisadores chamam de recompensa social - a sensação boa de cooperar, de ser útil a alguém e ser ajudado de volta. Os três juntos explicam por que vira febre", finaliza.