Você sabia que Dercy Gonçalves, um dos nomes mais lendários da comédia brasileira, está no Guinness World Records como a atriz com a carreira mais longa da história? Pois é! A artista iniciou sua trajetória em 1922 e atuou sem interrupções por 86 anos, encerrando sua carreira apenas em 2008, ano de sua morte, aos 101 anos de idade. Eita! Haja trabalho, viu?
O recorde, devidamente certificado, reconhece também um feito único: ela foi a única atriz a atuar em um filme aos 100 anos, com participação no longa "Nossa Vida Não Cabe Num Opala".
Nascida Dolores Gonçalves Costa, em Santa Maria Madalena (RJ), Dercy construiu uma imagem pública ousada e inconfundível. Com seu humor escrachado, uso impiedoso de palavrões e domínio absoluto do teatro de improviso, ela rompeu todas as barreiras possíveis para uma mulher de origem pobre e sem educação formal.
Fugiu de casa aos 17 anos, escondida embaixo de um vagão de trem, para integrar uma trupe de circo. E assim começou uma trajetória de coragem e paixão pelos palcos. Começou nos espetáculos de teatro mambembe, depois dominou o teatro de revista, brilhou nas chanchadas do cinema nacional e encantou (ou chocou) plateias na televisão.
A vida de Dercy foi marcada por episódios que só alguém como ela poderia protagonizar. Em 1969, seu programa na TV Globo, "Dercy de Verdade", foi suspenso pela Censura Federal em plena vigência do AI-5. Anos depois, em 1991, no Carnaval do Rio de Janeiro, causou polêmica ao desfilar com os seios à mostra em um carro alegórico da Viradouro, escola que a homenageava com o enredo "Bravíssimo".
Nada disso, no entanto, abalava sua alegria. Pelo contrário: ela fazia de tudo isso parte do show. Diva que inspira, não é mesmo!? Mesmo aos 100 anos, Dercy era um furacão de irreverência. No seu centenário, em 2007, promoveu uma festa pública em sua cidade natal, levantando as pernas para fotógrafos, distribuindo palavrões e declarando: "Eu vou sentir falta de vocês. Mas vocês também vão sentir a minha".Ela afirmava, aliás, que tinha 102 anos, pois segundo ela, seu pai a registrou dois anos depois do nascimento verdadeiro.
Filha de um alfaiate alcoólatra e de uma lavadeira que abandonou a família, Dercy enfrentou uma infância marcada por miséria, abandono e preconceito. Sofreu abusos, contraiu tuberculose, criou a filha sozinha e, mesmo já idosa, teve suas economias desviadas por empresários desonestos. Ainda assim, nunca perdeu o humor nem a vontade de viver.
Dercy morreu em 19 de julho de 2008, de complicações pulmonares. Em um gesto simbólico e excêntrico, foi enterrada em pé, dentro de uma pirâmide de cristal, projeto que ela mesma idealizou. O Guinness reconheceu sua longevidade artística naquele mesmo ano. Em vida, ela já sabia que tinha deixado sua marca na história e que, muito provavelmente, ninguém a tiraria dali.
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