[ALERTA: o texto a seguir aborda assuntos relacionados a violência doméstica. Caso você esteja passando por uma situação do tipo ou conheça alguém que precise de ajuda, procure a Central de Atendimento à Mulher, disponível 24 horas pelo telefone 180, ou a Delegacia Especializada da Mulher (DDM) mais próxima]
Um dos crimes mais chocantes do país, que culminou na condenação do ex-goleiro do Flamengo, Bruno Fernandes, pelo assassinato de Eliza Samudio, voltou a despertar o interesse público após a descoberta de um suposto passaporte vinculado à modelo em Portugal, nesta segunda-feira (5).
A informação ganhou força principalmente porque levou até mesmo a mãe de Eliza Samudio a se manifestar publicamente sobre o paradeiro do documento, reacendendo o interesse e as discussões em torno de um crime que nunca teve um desfecho completo, afinal, o corpo de Eliza jamais foi encontrado.
A repercussão levou muitas pessoas a pesquisarem novamente sobre o caso e trouxe à memória o documentário "A Vítima Invisível: O Caso Eliza Samudio", lançado pela Netflix em novembro de 2024.
Diferente de outras abordagens do gênero true crime, "A Vítima Invisível: O Caso Eliza Samudio" propõe uma mudança clara de foco. Em vez de reforçar a figura do agressor, o documentário reconstrói a história a partir da perspectiva da vítima. O filme foi escrito por Carol Pires e Caroline Margoni, com direção de Juliana Antunes, e busca devolver humanidade a uma mulher que, durante anos, foi tratada apenas como um escândalo midiático, segundo a própria narrativa apresentada na obra da Netflix.
O documentário traz à tona mensagens e conversas inéditas de Eliza Samudio com amigos próximos. Nos registros, ela revela sonhos simples e urgentes, como retomar os estudos e criar o filho em paz. Em uma das falas preservadas no filme, Eliza diz: “Quero só paz para cuidar do meu filho e estudar. Viver minha vida sem medo”. Em outra, reforça o desejo de seguir em frente: “Quero terminar logo os estudos para fazer faculdade. Tomara que até lá eu já tenha resolvido as coisas com o pai do meu filho. Depende da Justiça.”
Esses relatos ajudam o público a compreender quem era Eliza além do rótulo que lhe foi imposto.
Antes de ser assassinada, Eliza Samudio havia acionado a Justiça com base na Lei Maria da Penha. Ela relatava agressões e ameaças de morte feitas pelo ex-goleiro Bruno, então ídolo do Flamengo, informação detalhada no documentário da Netflix. Mesmo diante dos pedidos de proteção, Eliza foi enganada e atraída para uma emboscada sob a promessa de um acordo. Foi sequestrada com o filho ainda bebê, mantida refém, torturada e assassinada com requintes de crueldade, conforme reconstitui o filme.
Seu corpo nunca foi encontrado, apesar das confissões de Bruno e de outros envolvidos no crime.
Um dos pontos mais fortes do documentário é a análise de como Eliza Samudio foi julgada não apenas nos tribunais, mas também pela sociedade. A produção aborda o conceito jurídico conhecido como “in dubio pro stereotypo”, termo cunhado em 1998 pela jurista Silvia Pimentel, citado no filme. A ideia explica como mulheres que não se encaixam no padrão esperado de “vítima ideal” acabam tendo sua palavra descredibilizada.
Reduzida ao rótulo de "Maria Chuteira", Eliza foi acusada de ser interesseira e responsável por prejudicar a carreira de Bruno, enquanto o comportamento do jogador nunca foi alvo da mesma reprovação moral. Segundo o documentário, o atleta manteve diversas relações extraconjugais sem que isso afetasse sua imagem pública ou profissional.
Confira o trailer do documentário abaixo:
player2
player2
player2