Uma declaração recente de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, de 89 anos, movimentou as redes sociais, gerando um baite debate sobre o uso de cigarro nas novelas da TV Globo. Em um vídeo publicado nesta quarta-feira (30) em seu perfil no Instagram, o ex-diretor-geral da emissora revelou que, durante os 30 anos em que comandou a teledramaturgia, proibiu o cigarro em cena, com raríssimas exceções! Porém, a web não concordou muito não...
“Eu proibi o uso de cigarros em novelas durante os 30 anos que estive na TV Globo. E com uma única exceção: se o cara usasse o fumo e tivesse uma doença grave ou até pudesse morrer, como aconteceu, por exemplo, na novela 'Vale Tudo', onde o compositor e pianista fuma desbragadamente e acaba morrendo”, explicou, fazendo referência ao personagem Rubinho, interpretado por Daniel Filho em 1988 e por Julio Andrade no remake atualmente no ar.
Segundo Boni, a decisão não teve origem em uma repulsa pessoal, embora ele admita nunca ter fumado e detestar o cheiro do cigarro, mas sim em uma preocupação com o impacto social da TV. “Eu proibi para evitar a glamourização do cigarro. O cigarro é uma coisa terrível”, declarou.
Apesar da intenção declarada por Boni, o discurso não passou ileso. Nos comentários da publicação, diversos usuários apontaram que a presença de cigarros em novelas da Globo era comum nas décadas de 70, 80 e até parte dos anos 90.
“Durante os anos 80 era super comum vermos artistas fumando nas novelas. Não entendi...”, escreveu um internauta. Outro relembrou: “Assisti 'Selva de Pedra' ano passado: remake! Tinha cenas em que todos os atores fumavam… principalmente em jantares dos personagens!”
Personagens considerados mocinhos ou centrais, como os de "Mulheres de Areia" e "Água Viva", também foram lembrados por usuários como exemplos de quem fumava em cena sem necessariamente sofrer consequências dramáticas. “O Raul Cortez e o Fábio Jr. em 'Água Viva' não largavam o cigarro”, comentou uma seguidora.
Um internauta chegou a questionar diretamente a veracidade da fala de Boni: “Só que não é verdade. É só consultar os arquivos das novelas de 40 ou 50 anos atrás, e veremos vários personagens fumando.” E outro completou: “O Afonso da primeira versão de 'Vale Tudo' fumava o tempo todo, basta ver os vídeos antigos. E não tinha nada relacionado, era apenas o hábito de fumar.”
Entre os comentários, uma teoria ganhou força: a de que a restrição ao fumo teria sido aplicada de maneira seletiva, especialmente a personagens femininas - em particular, as heroínas. Segundo alguns relatos, mocinhas raramente fumavam, enquanto vilãs, mulheres "tresloucadas" ou homens com personalidades dúbias eram os que mais apareciam com o cigarro em mãos. Essa distinção reforçaria a ideia de que o cigarro, quando presente, servia como marcador moral ou comportamental.
Um seguidor resumiu: “Depois de um tempo, ali pelo meio e final dos anos 90, aí sim o cigarro foi banido, acompanhando as resoluções do governo e da população de proibir o fumar em locais fechados". Será!?
A fala de Boni também trouxe à tona uma preocupação atual... o uso de cigarros eletrônicos, os populares vapes. No mesmo vídeo, ele destacou que leu um artigo da psiquiatra Analice Gigliotti, publicado na Veja Rio, alertando sobre os perigos do dispositivo. “É pior. O vape é uma tragédia. Espero que nunca apareça o vape em nenhuma novela”, afirmou.
Na legenda da publicação, Boni reforçou seu posicionamento: “Eu nunca fumei e odeio o cheiro de cigarro. Mas não foi por isso que eu proibi que personagens fumassem nas novelas. Aliás, tinha uma exceção em que eu liberava o fumo. (...) Hoje existe algo ainda pior do que o cigarro. São os vapes. Espero que não haja nenhum personagem que use vape em novelas. Eles são uma tragédia".
Apesar das divergências entre a fala do ex-diretor e a memória coletiva dos telespectadores, é inegável a influência de Boni sobre a forma como a TV brasileira moldou comportamentos ao longo de décadas. Sua tentativa de limitar a exposição do cigarro pode ter sido inconsistente, mas refletia uma preocupação que só se tornaria pauta pública anos depois, com leis mais rígidas e campanhas antitabagismo.