Ter filhos é um dos maiores desejos de algumas pessoas, enquanto outras preferem não seguir esse caminho. Para o filósofo espanhol Francesc Torralba, essa decisão envolve sentimentos complexos que vão muito além da alegria de formar uma família.
Em uma reflexão sobre a maternidade e a paternidade, o especialista chamou a atenção para as recompensas e os desafios de criar uma criança, além de questionar os julgamentos direcionados a quem decide não ter descendentes.
Em uma conversa recente, divulgada pelo portal espanhol Ok Diario, o filósofo resumiu essa dualidade em uma declaração que convida à reflexão: "Um filho pode ser uma fonte infinita de felicidade, mas também uma fonte infinita de sofrimento".
Segundo ele, embora a experiência de criar uma criança possa proporcionar momentos de realização, também exige dedicação, renúncias e uma responsabilidade que acompanha os pais ao longo da vida.
Doutor em Filosofia e Teologia, Francesc Torralba destacou que a decisão de ter filhos não deve ser tratada como uma obrigação social. Para o pensador, é necessário reconhecer que a experiência da parentalidade não é positiva da mesma maneira para todas as pessoas e que as dificuldades enfrentadas durante a criação dos filhos também precisam ser consideradas.
Ao comentar o assunto, o filósofo questionou os rótulos atribuídos a quem prefere não ter descendentes.
"É muito fácil chamar de egoístas aqueles que querem ser felizes e, por isso, não vão ter filhos. Não há dúvida de que, às vezes, o exercício da maternidade e da paternidade é uma fonte de infelicidade. Exige muita entrega e é um investimento a fundo perdido", afirmou, em declaração reproduzida pelo Ok Diario.
A reflexão não significa que a chegada de uma criança seja necessariamente motivo de infelicidade. O ponto levantado por Torralba é que a experiência pode envolver sentimentos contraditórios, e reconhecer essa realidade ajuda a compreender melhor a dimensão da escolha de se tornar mãe ou pai.
Outro aspecto abordado por Francesc Torralba é o cenário mundial e as incertezas que cercam o futuro. Na avaliação do especialista, questões como as mudanças climáticas, o desenvolvimento descontrolado da inteligência artificial e a atuação de líderes políticos sem escrúpulos fazem parte das preocupações que alimentam o debate sobre trazer uma criança ao mundo.
"Há um grande debate sobre se, em um mundo como o nosso, tão incerto, tão vulnerável e tão ameaçado por todos os tipos de forças, é o melhor cenário para trazer ao mundo uma criança tão cândida e inocente", declarou o filósofo, conforme a publicação espanhola.
A preocupação apresentada por Torralba envolve a responsabilidade de criar alguém em uma realidade que nem sempre oferece garantias de estabilidade. A reflexão também evidencia as dúvidas que podem acompanhar pessoas que desejam ter filhos, mas se questionam sobre as condições que encontrarão nas próximas décadas.
Mesmo reconhecendo os desafios da criação, Francesc Torralba não deixou de destacar os aspectos positivos da maternidade e da paternidade. Durante uma conversa com Josef Ajram, no podcast Gente sin límites, o filósofo definiu a experiência como 'uma bênção' e como uma oportunidade de permitir que outra pessoa desfrute da vida.
Para ele, criar um filho representa um 'ato de doação', pois envolve oferecer tempo, dedicação e apoio para que a criança desenvolva o próprio caminho. Ao mesmo tempo, o especialista reconheceu que essa jornada é marcada por contrariedades e dificuldades, que fazem parte das responsabilidades assumidas pelos pais.
A recompensa, segundo o pensador, está em acompanhar o desenvolvimento dos filhos e perceber que o esforço dos responsáveis contribui para a realização pessoal deles.
"Às vezes, é uma fonte de felicidade infinita porque você percebe que, graças ao seu esforço, à sua doação e à sua entrega, ele vai realizando seu projeto de vida. E isso te preenche", explicou Torralba, de acordo com o Ok Diario.
Além de refletir sobre a decisão de ter filhos, Francesc Torralba abordou o papel dos pais na educação e se posicionou contra a ideia de que os responsáveis devem tentar estabelecer uma relação de amizade com as crianças.
Na visão do especialista, a relação entre pais e filhos possui características próprias e não deve ser confundida com uma amizade entre pessoas que ocupam posições equivalentes. Para ele, a responsabilidade dos adultos precisa estar presente na maneira como orientam a formação dos filhos.
"É um erro que os pais tentem ser amigos dos filhos. A amizade nunca foi descrita como uma relação paterno-filial ou materno-filial, e a relação entre pais e filhos, desde o início, é de responsabilidade", afirmou.
O filósofo também ressaltou que cabe aos responsáveis corrigir comportamentos, reconhecer atitudes positivas, estabelecer limites e servir de exemplo. 'Um pai tem que corrigir, premiar, colocar limites e ser exemplo', declarou.
A reflexão reforça a importância de compreender a parentalidade como uma relação que combina afeto e responsabilidade. Para Francesc Torralba, o desafio não está apenas em proporcionar felicidade aos filhos, mas também em assumir o compromisso de acompanhá-los durante o desenvolvimento, respeitando o caminho que cada um construirá para a própria vida.