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Final da novela 'Sete Vidas' dispensa clichês e dá um show de dramaturgia

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Os casais protagonistas Júlia (Isabelle Drummond) e Pedro (Jayme Matarazzo); Lígia (Debora Bloch) e Miguel (Domingos Montagner) ficaram juntos no último capítulo da novela 'Sete Vidas',  em 10 de julho de 2015
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Os casais protagonistas Júlia (Isabelle Drummond) e Pedro (Jayme Matarazzo); Lígia (Debora Bloch) e Miguel (Domingos Montagner) ficaram juntos no último capítulo da novela 'Sete Vidas', em 10 de julho de 2015
Sem precisar de sequestros, casamentos ou nascimento de bebês, a trama de Lícia Manzo emocionou com diálogos primorosos e cenas belíssimas

"É muita vida para caber num texto só". Essa fala de Irene (Malu Galli) resume bem o desafio que é falar dessa obra impecável de Lícia Manzo, que chegou ao fim no último capítulo de "Sete Vidas", exibido nesta sexta-feira (10). Esta é uma novela que faz a reflexão profunda e delicada sobre os laços que unem a nova e contemporânea família, aqui retratada pelo protagonista Miguel (Domingos Montagner) e seus sete filhos.

Jean Paul Sartre disse que "o inferno são os outros". Mas a trama das seis, com seus pouco mais de 100 capítulos vai além, e mostra que na verdade o inferno somos nós mesmos. Com fraquezas, dúvidas, conflitos internos e desejos que se contrapõem; numa constante e desesperada tentativa de acertar, mas errando muito mais do que aceitamos que errem conosco.

Tão ou mais brilhante que em "A Vida da Gente", novela de estreia da autora, "Sete Vidas" não trouxe "grandes viradas ou reviravoltas", como disse a dramaturga em entrevista ao Purepeople, mas nem por isso deixou de provocar grande e fortes emoções em cada um de seus capítulos, tanto quanto no último. Combinando com maestria força e suavidade, Lícia desenha personagens que são o espelho de quem os assiste. Muitas vezes falhos, noutras covardes, mas acima de tudo: humanos.

Um final feliz sem sequestro, casamento e gravidez... Será possível?

No último capítulo, diferentemente de 9 entre 10 novelas, não teve casório nem outros clichês. Houve o reencontro de Julia (Isabelle Drummond) e Pedro (Jayme Matarazzo), em duas sequências fantásticas. Os dois não chegaram a trocar uma única palavra. Apenas o olhar, a respiração e um beijo disseram tudo que havia para ser dito. O reencontro de um casal que se apaixonou no primeiro capítulo e viveu uma odisseia até poder finalmente viver esse amor. A frustração de quem torcia por Júlia e Felipe é compreensível. Mas apesar de "PeJu" não ter a maior torcida, certamente foi o rumo mais próximo da vida real.

O fantástico dessa história é a transformação pela qual todos os personagens passaram, cada um a seu modo. Miguel por exemplo, que começou a jornada como um lobo solitário, termina como pai amoroso de cinco filhos gerados por doação de seu sêmen, uma filha afetiva e um último fruto da paixão avassaladora e conflituosa que viveu com Lígia (Debora Bloch). Um homem livre da culpa e do medo. Se isso não é lição de vida, qual é? Vale ressaltar também que nem tudo acaba bem (novamente como na vida). Marlene (Cyria Coentro) se decepcionou mais uma vez com Durval (Claudio Jaborandy) e ficou sozinha no fim.

Arte que imita a vida

A partir da própria abertura, que foi criada com imagens reais da equipe que a produziu, a proposta da novela fica evidente. "A arte imita a vida e a vida imita a arte". Mas seria possível a telenovela, algo tão corriqueiro (e muitas vezes rechaçado), alcançar tal nível de profundidade? Lícia Manzo, elenco, direção e produção provam que sim. A entrega de todos os envolvidos extravasou para fora da tela. Elogiar a beleza do texto, das cenas, das interpretações, apontando nomes aqui e ali não seria justo. O todo é mais forte que as particularidades, mesmo num folhetim com nomes como Regina Duarte, por exemplo, que se reinventou na pele de Esther, uma personagem com tamanha força transformadora no discurso e no olhar. Essa dramaturgia aponta para o futuro do gênero, que mais cedo ou mais tarde terá de se reinventar para continuar se sustentando.

Difícil assistir a um capítulo sequer de "Sete Vidas" sem ver ali estampado na tela nossas mães, pais, amigos, irmãos, tias, tios, avós, amores, desafetos... Nós mesmos. E para quem tem olhos de ver e ouvidos de ouvir, percerber a grandeza disso é uma epifania. A autora faz de seu ofício um instrumento poderoso para tocar pessoas. Para falar aquilo que é proibido ou polêmico com uma naturalidade tão absurda que não causa nenhuma indignação. Assim ela falou de homo e bissexualidade, do tabu que é o incesto, de vício e perdão, traição, egoísmo, e até "cigarrinhos legalize" em Amsterdã... Tudo sem causar alarde ou revolta. Foi mais ousada que "Babilônia", mas não sofreu boicote.

'Será que a gente pode conversar?"

"Sete Vidas" teve o diálogo como protagonista. Se há um bordão na trama é esse: "será que a gente pode conversar?". Para alguns pode até parecer chato e morno, mas se não for pela conversa, como é que as coisas se resolvem? Isso mesmo, no grito ou pela agressão e na violência. O folhetim nos leva a refletir questões, se questionar, analisar a sua posição e a do outro... Conversar para se entender.

A novela ainda merece reverências por ser também uma fonte de cultura. Durante a trama, Fernando Pessoa, Saint-Exupérry, Paulo Leminski, Guimarães Rosa e Van Gogh, para lembrar alguns, foram citados nas cenas. "Sete Vidas" vai deixar saudades. Só nos resta esperar ansiosamente pela próxima novela de Lícia Manzo, e torcer para que ela ganhe logo o horário nobre.

(Por Samyta Nunes)

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