Engana-se quem pensa que Robin Williams foi somente um ator de comédia. Assim como tinha um raciocínio rápido, uma capacidade de improviso em segundos, e uma energia em cena capaz de deixar o público cansado ao extremo só de ver, o artista tinha o dom de fazer reflexões profundas a respeito da vida, do tempo e da felicidade.
Premiado com o Oscar por "Gênio Indomável" e astro de "Sociedade dos Poetas Mortos", "Bom Dia, Vietnã" e "Uma Babá Quase Perfeita", o americano tem um lado que ultrapassa os papéis no cinema. Dos pensamentos mais marcantes há um que tem um valor muito maior do que sugere à princípio.
"O dia de hoje não se repetirá. Viva intensamente cada instante — o que não significa viver de forma desenfreada, mas sim valorizando cada situação". Tal reflexão acaba por ganhar outra dimensão quando passamos a conhecer a história quem a disse.
É importante separarmos a reflexão do ator em duas partes. Na primeira, tempos algo que é encontrado com frequência na tradição filosófica e no pensamento geral de várias culturas. O segredo está na parte dois do pensamento.
Robin Williams não ficou limitado ao falar que era preciso viver o "agora": o ator deu um esclarecimento a respeito do significado da frase, que bate de frente com o que a autoajuda comumente propõe.
Partimos da ideia que viver de forma intensa não é o mesmo que ter uma vida sem freios, sem limites. Não é ir atrás de fortes emoções, experiências extremas ou de gratificação instantânea, fazendo tudo de isso de maneira compulsiva.
Temos que ter afeto e atenção com cada momento. E viver também tem relação com o cuidado e a presença. Ou seja, temos que nos virar totalmente para um assunto e focarmos nele o tempo que for preciso, sem precisar nos apressarmos com a cabeça já na etapa seguinte.
Essa comparação é presente em filosofias vindas do Oriente, que gostam do termo "mindfulness", ou seja a atenção plena. Para a psicologia dos dias de hoje, é um dos fatores que mais se associa ao bem-estar. Acontece que Robin Williams estruturou de forma tão simples que não é preciso recorrer a nenhuma teoria.
O pensamento do ator ganha um peso extra que não podemos deixar de citar. Apesar da carreira erguida sobre a alegria e o dom que tinha para entreter, o astro tinha uma luta interna que poucas vezes foi exposto enquanto ele vivia. Williams enfrentava depressão e alcoolismo, fora outras lutas que nunca revelou em grande parte da vida.
A morte em 2014 abalou o mundo porque ninguém que assistia aos seus filmes imaginava as dores que suportava. E é por isso que seu pensamento a respeito de viver o agora fugia tanto de uma dica encontrada em manual.
Suas palavras não eram de alguém que tinha a alegria como parceira frequente. Pelo contrário, o ator tinha a noção que o bem-estar é algo frágil e valioso - justamente por isso, dava a merecida atenção antes que fugisse de novo.
O que aprendemos com esse pensamento do ator nada mais é do que de maneira concreta entender o significado de felicidade. Ela não é algo que se mantém ao ser atingida, porém um estado que se constroi aos poucos baseada no quanto de atenção damos a ela em cada momento.
Temos que ser zelosos com uma conversa, uma refeição, um passeio, uma tarde sem compromissos agendados... Não queremos dizer que tais momentos são algo fora do comum e sim por serem únicos. Nos dias atuais, a combinação exata de motivos, cidadãos e estados de espírito se tornará única.
E a irreversibilidade, que soaria como ameaça, se torna um motivo mais firme para sermos atenciosos. E Robin Williams tinha essa noção. E falou isso da mesma forma clara que agia em outras situações.