Na mitologia grega, Procusto tinha uma cama de ferro e um jeito cruel de acomodar os viajantes. Se eram baixos demais para o leito, ele os esticava. Se eram altos demais, cortava parte de seus membros.
Nassim Nicholas Taleb retomou essa história em “A cama de Procusto” para mostrar o que acontece quando tratamos nossas ideias como medidas fixas e forçamos a realidade a caber nelas.
Taleb nasceu no Líbano, trabalhou por mais de duas décadas no mercado financeiro e tornou-se professor de engenharia de risco na Universidade de Nova York.
Sua contribuição ao debate filosófico vem, em parte, de levar uma questão familiar a quem trabalha com risco para além das finanças: como agir quando só conhecemos uma parte da história?
Em seus livros, essa pergunta vale tanto para quem tenta avaliar um investimento quanto para quem procura entender as próprias escolhas.
“Quem você mais teme contradizer é você mesmo.” Com esse aforismo, Nassim Nicholas Taleb abre a seção “Prelúdios” de “A cama de Procusto”, livro publicado originalmente em 2010 e traduzido no Brasil por Renato Marques.
Logo depois, Taleb diz que uma ideia começa a ficar interessante quando dá medo de pensar aonde ela pode nos levar.
É fácil dizer que podemos estar errados. Difícil é pensar no que teríamos de mudar se fosse o caso.
Talvez seja preciso voltar atrás numa decisão, conversar com alguém a quem já demos nossa palavra ou reconhecer que um plano em que investimos tempo deixou de fazer sentido.
Na abertura de “A cama de Procusto”, Taleb explica que algumas das questões levantadas ali já haviam sido discutidas em “Iludidos pelo acaso”. Nesse livro, ele mostra como é fácil confundir sorte com habilidade, especialmente no mercado financeiro.
Um operador que ganha dinheiro várias vezes com a mesma estratégia pode tomar os ganhos como prova de que avaliou bem o risco. Mas esses resultados ainda dizem pouco sobre como a estratégia se sairia em condições diferentes.
Se o operador admitir que a sorte pode ter pesado nos resultados, terá de rever tanto a estratégia quanto a explicação que dava para o próprio sucesso.
A mesma dificuldade pode surgir quando uma ideia sobre nós mesmos se apoia em uma experiência que nunca examinamos de perto.
Imagine que você tenha passado meses dizendo que queria uma promoção. Quando surge a oportunidade, descobre que o novo cargo envolve menos do trabalho de que gosta e mais de tarefas que prefere evitar.
Na hora de decidir, é fácil continuar defendendo a promoção com os argumentos de antes. Afinal, você se preparou para ela e já contou a todo mundo que era isso que queria.
Uma forma de colocar a reflexão de Taleb em prática é refazer a escolha com as informações de hoje. Se a proposta chegasse pela primeira vez, o que nela faria você aceitar? Talvez ainda existam boas razões para dizer sim.
Mas, se a razão que mais pesa for o fato de você sempre ter dito que aceitaria, vale dar à proposta a mesma atenção que deu à ideia de conquistá-la.