Aos 60 anos e depois de mais de quatro décadas de carreira, Ana Paula Padrão, que voltou ao 'MasterChef Profissionais' no episódio de estreia do reality show, acumulou experiências em sua vida profissional que também mudaram sua forma de enxergar o papel das mulheres na sociedade.
No oitavo episódio de 'Na Palma da Mari: Entre Mulheres', da CNN Brasil, a jornalista discutiu com a especialista em investimentos Clara Sodré como a autonomia financeira interfere nas escolhas pessoais, profissionais e até na dinâmica dos relacionamentos.
Para a jornalista, a independência financeira feminina precisa começar antes mesmo de uma mulher pensar em construir o patrimônio: "A gente não pensa em que tipo de contrato está fazendo quando casa. E é um contrato. A mulher vai para o casamento pensando na festa, no vestido, e não pensa em que contrato está assinando".
"Conheço várias mulheres que dizem: 'Meu acordo com o meu marido é que eu vou ficar em casa e cuidar dos meus filhos, ele vai trabalhar e trazer o dinheiro'. OK. E 25 anos depois? Se você se separa e está escrito lá separação total de bens, o que fica para você? Nada. Então essa independência financeira passa por coisas que parecem banais, mas não são", pontuou.
"Se você faz um acordo com o seu marido e ele vai pagar as contas e você vai cuidar da casa e dos filhos, não reclame quando ele disser que gosta de calcinha de renda e você está com uma calcinha de algodão. Quem paga a sua calcinha é ele. E o dinheiro manda numa relação. Pode ser o maior amor do mundo, mas, se ele manifesta preferência pelo seu cabelo loiro, loira você será, porque você não tem independência para bancar a sua morenice ou o seu cabelo branco".
Durante a conversa, Ana Paula Padrão também destacou uma mudança que, segundo ela, já ocorre na realidade brasileira: "Mais de 50% do Brasil já é sustentado, bancado por mulheres. Nós somos as provedoras do Brasil hoje. Não são mais eles, somos nós. Só demora um tempo para que isso se reflita na cultura, para que a gente pare de dizer que ele é o chefe do domicílio", disse.
Clara Sodré, então, fez uma distinção entre autonomia financeira e independência financeira: "Quando a gente fala em independência financeira, muita gente pensa na hora em viver de renda, ter um patrimônio. Só que isso é um objetivo de longo prazo. Antes disso, você precisa ter autonomia financeira. Muitas vezes a mulher pensa no futuro de todo mundo e deixa o próprio para trás. A autonomia passa justamente por reconhecer que o nosso futuro merece atenção — e aí vem a ambição. E essa é a grande questão para você construir autonomia financeira".
Ana Paula relacionou a construção de uma reserva financeira à liberdade para mudar de carreira, deixar um trabalho ou tomar decisões profissionais sem depender de outra fonte de renda, especialmente a do marido:
"Ter um colchão financeiro ajuda muito. Ele te dá até autoestima para decidir que você não quer mais fazer aquilo e que vai fazer outra coisa. Tudo que eu ganhei, fui eu que ganhei, eu que construí. E ter esse colchão te dá autonomia porque você também se sente melhor para tomar decisões".
Fora do 'MasterChef' há dois anos, a jornalista agora trabalha com investimento nas áreas de educação e empoderamento feminino. No bate-papo, Ana Paula Padrão contou que chegou a mudar própria voz para ser percebida como uma autoridade.
"Tem estudos sobre a voz de poder. Qual é a voz que chega ao poder? Ela é sempre vista como uma voz de padrão masculino: mais grave, com menos ar entre as palavras, frases mais curtas e raciocínios mais lógicos. Eu não tinha essa voz com 20 anos. Eu mudei a minha voz porque percebi que seria mais bem entendida como uma pessoa de poder se tivesse uma voz de padrão masculino. E eu não fiz isso conscientemente. Olha o tamanho da barbaridade", afirmou.
No fim da conversa, Ana Paula defendeu que mulheres também tenham referências femininas quando buscam desenvolver papeis de liderança e autoridade.
"A maior parte dos livros que ensinam sobre poder foi escrita por homens. Então, não considera o potencial da mulher em liderar. E nós somos líderes por excelência. Lideramos a casa, a criação de uma vida, de uma criança, a maturidade dessa criança. (…) Minha grande provocação é: comece a seguir mulheres líderes que não abriram mão da feminilidade. Tudo bem se você quiser ter um trejeito mais masculino, sem problema nenhum. Você só precisa ter boas referências e entender que autoridade não tem nada a ver com gênero. Está cheio de mulher presidente de empresa hoje em dia, mulheres maravilhosas, de 40 anos, 40 e poucos. É maravilhoso", concluiu.