Existem personagens do remake de 'Vale Tudo' que ganham notoriedade quando estão prestes a aprontar alguma. Maria de Fátima e seu vestido rasgado são um exemplo, mas nada tem gerado mais polêmica do que falar sobre Heleninha Roitman, ou melhor, sobre a atuação de Paolla Oliveira.
Desde que foi confirmada no papel da complexa personagem do folhetim, pelo qual ela mesma afirmou ter lutado, Paolla Oliveira passa por um crivo de críticas sobre sua performance que, diga-se de passagem, está bem para os moldes da atriz.
Paolla é inteligente e sabia que, inevitavelmente, viriam comparações com a icônica Renata Sorrah, que viveu a mesma Heleninha em 1988.
No entanto, grande parte do público e da crítica esquece dois pontos fundamentais: o 'Vale Tudo' de 2025 não é uma reprise, mas sim uma adaptação. E mais: os tempos mudaram, e com eles, as abordagens também.
Para começar, o termo 'alcoolista' nem existia há 37 anos, época em que foi exibida a versão original da novela escrita por Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères.
Na época, palavras pejorativas como bêbada, embriagada, cachaceira e beberrona eram expressas aos montes; hoje, os termos são mais comedidos, pois o alcoolismo é tratado como o que é: uma doença, e não uma caricatura cômica de alguém fraco ou descontrolado.
Renata Sorrah criou sua Heleninha na base da alegria e do desequilíbrio, quase uma tragicomédia. Ela era uma mulher que bebia para fugir dos seus traumas, mas que carregava uma leveza e um brilho, mesmo em meio ao caos. A versão de Paolla é mais introspectiva, triste, e isso, para muitos, enfraquece a personagem.
A personagem é mimada, fútil, egoísta e frágil. Na realidade está tudo certo, Heleninha é um poço de problemas, mas agora está inserida em um mundo moderno, acelerado, onde ninguém se preocupa com as dores dos outros. E isso realça ainda mais sua vulnerabilidade emocional.
A elegância de Paolla Oliveira também contribui para o estranhamento. Sua aparência sofisticada - sem cara abatida, pele desgastada ou voz embargada — não corresponde ao arquétipo clássico de uma alcoólatra no fundo do poço. A sua Heleninha é classuda.... e tudo bem.
Nesse aspecto, o importante é perceber a magnitude da atriz que entrega o seu melhor. Paolla tem um histórico de mocinhas e vilãs sofisticadas; enquanto Renata já brilhava com mulheres problemáticas, assim foi a Mariana de 'Rainha da Sucata', um ano depois de 'Vale Tudo', ou mais recente, a Nazaré de 'Senhora do Destino'.
São atrizes, épocas e propostas distintas. E é justamente por isso que precisam ser analisadas com distanciamento. Cada uma à sua maneira. E todas com valor.