Há uma grande diferença entre escrever a lista de compras em um pedaço de papel ou em uma das notas do celular. A segunda opção pode ser mais prática, mas a primeira é, do ponto de vista cerebral, mais enriquecedora.
Quando escrevemos à mão em vez de no celular, ativamos mais regiões do nosso cérebro, o que melhora a aprendizagem, e isso tem sido estudado como um hábito que poderia ajudar a prevenir o Alzheimer.
O problema é que estamos cada vez menos analógicos e mais tecnológicos. Já não escrevemos a lista de compras em um pedaço de papel reciclado, mas em um aplicativo do celular.
Não anotamos algo em um post-it, mas nas notas do celular e, em vez de anotar em uma agenda de papel o que temos que fazer, recorremos aos calendários de nossos smartphones. Além disso, 35% dos jovens quase não escrevem à mão e a tecnologia nos causa cada vez mais “brain rot”.
A psicóloga educacional Virginia Berninger afirma que a escrita à mão e a digitação no teclado utilizam funções cerebrais relacionadas, mas diferentes. Escrever no papel ativa o cérebro de uma maneira distinta.
Na verdade, todo o cérebro é ativado quando escrevemos à mão, enquanto que, quando digitamos, as áreas ativadas são muito menores.
Por isso, Naomi Susan Baron, professora emérita de linguística na American University de Washington D.C. e autora de “Who Wrote This? How AI and the Lure of Efficiency Threaten Human Writing”, afirma que nos lembramos melhor das coisas escritas à mão do que daquelas digitadas em um computador ou celular, e a psicóloga Gail Matthews afirmava que escrever metas aumenta a probabilidade de alcançá-las. O mesmo ocorre com qualquer outra tarefa, como o que anotamos em uma agenda de papel ou em um calendário digital.
Além de que a escrita manual pode ativar redes cerebrais mais amplas do que digitar, seja em um celular ou em um computador, também há estudos que afirmam que escrever coisas no papel pode ajudar a lembrar e organizar melhor essas informações.
Isso se deve ao fato de que os processos físicos (mão-cérebro) ajudam a conservar melhor a informação e nos permitem nos concentrar muito mais na tarefa. Segurar uma caneta e pressioná-la sobre uma superfície, para depois, com um movimento, criar letras, é uma habilidade cognitivo-motora complexa que requer atenção.
A Scientific American explica que, quando você escreve à mão, não apenas registra informações, mas cria uma experiência multissensorial.
Seu cérebro coordena o movimento da mão, processa as informações visuais e ativa simultaneamente as áreas responsáveis pela linguagem e pela compreensão, pois o cérebro humano evoluiu para processar informações sensoriais e motoras ao longo do tempo.
Como se isso não bastasse, está comprovado que aumenta a concentração, melhora a memória de trabalho e nos permite aprimorar nosso pensamento crítico. No plano emocional, escrever à mão ajuda no processamento de nossas emoções e na redução do estresse, e os psicólogos afirmam que as pessoas que ainda escrevem à mão costumam ser mais criativas, mas também mais inteligentes.
Talvez seja um bom momento para voltar a escrever à mão, como quando estávamos na escola.