Virgínia Fonseca sempre divide com os seguidores sua batalha contra a enxaqueca crônica. Na última semana, a influenciadora chamou atenção ao expor que a doença também impacta sua rotina de treinos.
Virgínia contou que sempre faz adaptações em exercícios, especialmente, quando não está na presença de seu personal trainer. Uma das séries que precisou de mudanças foi a elevação pélvica.
Enquanto treinava na casa de Vini Jr. na Espanha, Virgínia optou por fazer o exercício deitada no chão com um halter. “Se eu fizer no banco, dói minha cabeça, por isso só faço quando estou com o personal ou desse jeito mais leve", explicou a influencer.
Outro exercício que passou por adaptação por conta do diagnóstico de Virgínia foi o agachamento. Para não desencadear crises, ela não faz séries com barras. "Agachamento também não posso fazer com a barra por conta da enxaqueca, então, faço segurando os halteres."
Mas, afinal, como os exercícios físicos podem impactar em quem tem crises de enxaqueca? A quantidade de peso está relacionada? Para tirar essa e muitas outras dúvidas, o Purepeople convidou o Dr. Tiago de Paula, médico neurologista especialista em Cefaleia pela Escola Paulista de Medicina (EPM/UNIFESP), membro da International Headache Society (IHS) e da Sociedade Brasileira de Cefaleia (SBC). Confira a seguir!
Exercícios físicos podem desencadear crises de enxaqueca?
Sim, exercícios físicos podem desencadear crises de enxaqueca em algumas situações, mas não é em todo paciente com enxaqueca, vemos isso mais frequente em pacientes com a doença crônica.
Quanto pior está a doença, mais predispostos as pessoas com enxaqueca ficam em ter dores com atividade física. A intensidade do esforço, alguns exercícios específicos e diversos gatilhos clássicos podem desencadear crises.
A enxaqueca é uma doença do complexo trigêmeo cervical e quando crônica, o paciente também apresenta maior sensibilidade nessa região, assim, exercícios de musculação que trabalham trapézio e ombros podem desencadear crises.
Em quais situações isso é mais comum?
Principalmente, quando há fatores associados: esforço muito intenso, desidratação, jejum prolongado, calor excessivo ou até noites mal dormidas. O exercício em si não é o problema, o contexto fisiológico é que costuma ser o gatilho.
Desidratação, jejum prolongado, calor excessivo, barulho excessivo e cheiros na academia também podem desencadear crises. Mas isso não significa que o treino seja vilão, na essência, a atividade física é benéfica para controle de enxaqueca.
Virgínia Fonseca relatou dores de cabeça em exercícios como elevação pélvica unilateral e agachamento. Por que especificamente esses exercícios, que trabalham membros inferiores, podem causar desconfortos em pacientes com enxaqueca?
Exercícios de agachamento que colocam peso na região cervical e trapézio são um problema. Mesmo sendo exercícios de perna, como agachamento ou elevação pélvica unilateral, eles exigem muita estabilização do core e frequentemente envolvem a manobra de Valsalva (prender a respiração). Isso aumenta a pressão intracraniana e a pressão arterial momentaneamente, o que pode desencadear dor em quem tem enxaqueca.
É sabido que a prática regular de atividade física pode ajudar a reduzir a frequência das crises. Como dosar essa rotina de treinos de modo a não surtir o efeito contrário?
Paciente com menos crises e com a doença mais controlada consegue fazer atividade física sem ter dores e ela ainda ajuda, independente da quantidade e intensidade do treino. Então, o que define se tem mais ou menos chance de ter dores após a atividade física é o grau de controle de sua doença.
Para meus pacientes, eu sempre indico a progressão gradual. Nada de sair do zero para intensidade máxima. O ideal é aumentar a carga e intensidade aos poucos, manter regularidade e respeitar sinais do corpo.
Existem tipos de exercício mais propensos a piorar a enxaqueca?
Sim, musculação de membros superiores, principalmente, quando pega região cervical e ombros. Exercícios que fazem apneia também são um problema por fazer aumentar a a pressão intracraniana, exercícios de carga inclinada na qual a cabeça fica para baixo. E qualquer exercício de alta intensidade, como HIIT muito intenso e locais com som alto, como em aulas de spinning.
Mas sempre quero reforçar que quanto melhor o controle da doença, menos isso tende a interferir. Meus pacientes conseguem retomar essas aulas após o controle da doença.
Adaptações como trocar barra por halteres ou fazer exercícios no chão fazem diferença para quem tem enxaqueca?
Pode ajudar, sim. Essas adaptações reduzem a sobrecarga axial e permitem mais controle do movimento, ou seja, tornam o exercício mais “amigável” para quem tem enxaqueca.
Exercícios aeróbicos, como corrida e bicicleta, são mais seguros ou também exigem cautela?
Caminhada, bicicleta e corrida leve tendem a ajudar na prevenção. Mas ainda assim precisam de cuidado com hidratação, intensidade e clima. E sabendo se o paciente está com a doença crônica, muitas vezes nem esses exercícios ele consegue fazer sem desencadear crises.
Em linhas gerais, quais suas principais recomendações para quem tem enxaqueca e quer treinar?
Sentir seu limite e se tiver crises com exercício físico, nunca se medicar. Procure um tratamento para conseguir fazer os exercícios sem ter crises.
Outras coisas básicas: nunca treinar em jejum prolongado, manter boa hidratação, respirar de forma adequada, avaliar a intensidade de exercício conforme seu limite, frequentar lugares com luz amarela ou com luzes menos intensas e com menos ruído, se não for possível, usar abafadores de ruído, priorizar regularidade em vez de intensidade e respeitar sinais iniciais de crise.