Falar de Benedito Ruy Barbosa, que faleceu aos 95 anos após complicações de uma insuficiência renal crônica nesta terça-feira, 07 de julho, é revisitar um dos capítulos mais importantes da história da dramaturgia brasileira.
Ao longo de mais de seis décadas de carreira, o autor construiu uma obra gigantesca, com cerca de 40 trabalhos entre televisão, cinema e rádio, sempre valorizando o homem do campo, a cultura brasileira e os conflitos familiares que atravessam gerações.
Foi dele a responsabilidade por criar alguns dos maiores clássicos da TV Globo, como 'Cabocla', 'Sinhá Moça', 'O Rei do Gado', 'Pantanal' e 'Renascer'.
Muitas dessas novelas não apenas conquistaram o público em suas exibições originais, como também ganharam reprises. Esse é o caso de 'Terra Nostra', recentemente reexibida na Globo.
Curiosamente, duas novelas importantes escritas por Benedito nunca tiveram uma reprise na programação da Globo. Embora não tenham alcançado o mesmo impacto de seus maiores sucessos, ambas deixaram sua marca e poderiam ganhar uma nova oportunidade na TV aberta, ainda que em versão editada.
Exibida entre 2002 e 2003, 'Esperança' nasceu cercada de expectativas. Afinal, ela sucedia o enorme fenômeno de 'Terra Nostra', novela que havia conquistado o Brasil apenas dois anos antes.
A trama voltou a explorar a imigração italiana, mas não conseguiu repetir o mesmo êxito. O ritmo considerado lento por parte do público, mudanças de rumo na história e dificuldades nos bastidores fizeram da produção uma das novelas mais problemáticas da carreira do autor.
Os conflitos internos chegaram ao ponto de a Globo convocar Walcyr Carrasco para assumir a reta final da novela.
Apesar da recepção morna no Brasil, a novela foi exportada para diversos países e passou a integrar o catálogo do Globoplay por meio do Projeto Resgate. Ainda assim, nunca recebeu uma reprise na TV Globo.
Última novela inédita de Benedito para a Globo, 'Velho Chico' foi exibida em 2016 e contou com texto desenvolvido ao lado de Edmara Barbosa e Bruno Luperi, sob supervisão do autor.
Ambientada às margens do Rio São Francisco, a produção foi amplamente elogiada pela fotografia cinematográfica, pela direção artística de Luiz Fernando Carvalho e pela forma sensível como retratou a cultura nordestina.
No entanto, a novela acabou ficando marcada por uma das maiores tragédias da televisão brasileira.
Durante as gravações da reta final, Domingos Montagner, um dos protagonistas da história, morreu por afogamento no Rio São Francisco, em setembro de 2016. A produção precisou adaptar os capítulos finais para concluir a trama sem o ator.
É muito provável que a emissora evita reprisá-la justamente pelo forte impacto emocional que a morte de Montagner ainda provoca.