Tem celebridade que vai ao Met Gala 2026 para cumprir tabela. Tem celebridade que tenta seguir o tema. E tem Rihanna - que, a esta altura, parece entender o baile beneficente do Costume Institute como poucos... não como um simples tapete vermelho, mas como um espetáculo particular em que moda, performance, timing e personalidade precisam andar de mãos dadas.
Não por acaso, cada aparição da cantora na famosa primeira segunda-feira de maio virou praticamente um acontecimento dentro do acontecimento. Hoje tratada por críticos internacionais e pela própria cultura pop como a grande soberana da escadaria do Metropolitan Museum of Art, Rihanna nem sempre ocupou esse posto com naturalidade.
Houve tropeços, ensaios de ousadia, fases mais discretas e, principalmente, uma curva de amadurecimento fashion que ajuda a explicar por que sua chegada ao Met Gala 2026 continua sendo uma das mais aguardadas da noite. A verdade? Rihanna não nasceu rainha do Met Gala. Ela se tornou!
Quando subiu pela primeira vez a escadaria do Met, em 2007, Rihanna ainda estava longe da figura mitológica fashion que conhecemos hoje. No auge inicial de “Umbrella”, a cantora apostou em um vestido branco de Georges Chakra, com cintura império, bordados prateados e uma proposta delicada, quase de debutante de gala.
Era bonito? Sim. Era memorável? Nem de longe.
O visual ainda trazia luvas pretas de arrastão, joias tradicionais e uma rosa vermelha, compondo um styling que hoje parece datado e excessivamente “montadinho”. Faltava risco, faltava narrativa, faltava a segurança de quem entende que no Met Gala não basta estar elegante, é preciso causar uma impressão duradoura. Rihanna, ali, parecia mais uma convidada tentando acertar do que uma futura protagonista.
Dois anos depois, a artista deu sua primeira guinada estética importante. Saiu o vestido de princesa tardia; entrou um terno preto de Dolce & Gabbana com ombros marcados, mangas bufantes, camisa branca e luvas de couro. Era uma Rihanna mais dura, mais editorial e claramente interessada em fugir do óbvio.
Ainda não era o tipo de look que parava a internet, mas já havia ali uma noção importante: a de que ela não queria ser apenas “bonita no tapete”. Queria começar a brincar com personagem. A alfaiataria "masculina" ajudou a construir essa transição de estrela pop para figura de moda. Foi o primeiro “hmm, talvez ela esteja entendendo a brincadeira”...
As duas aparições seguintes funcionam quase como laboratório.
Em 2011, na homenagem a Alexander McQueen, Rihanna escolheu um vestido preto rendado de Stella McCartney, com transparências, decote profundo e cabelo ruivo em ondas dramáticas. Era sexy, gótico e mais maduro. Uma tentativa de glamour sombrio que conversava com a imagem de mulher fatal que ela começava a consolidar!
Já em 2012, ela radicalizou para o lado oposto e surgiu em um Tom Ford preto de textura brilhante, frente fechada e costas cavadas. O corte era severo, quase arquitetônico, acompanhado de cabelo curtíssimo e maquiagem pesada.
Nessa altura, Rihanna ainda parecia procurar qual seria sua linguagem no Met: sensual? minimalista? avant-garde? sombria? clássica? Cada ano trazia uma pista, mas ainda não havia surgido “o momento”. Era como assistir a uma artista ensaiando a própria coroação sem saber exatamente qual coroa queria usar!
Em 2014, já completamente segura de sua força pop, Rihanna aparece de Stella McCartney em um conjunto branco de duas peças com barriga à mostra, saia longa fluida, recortes laterais e estola.
Não era o look mais teatral da história do Met, mas foi decisivo por um motivo: pela primeira vez, ela parecia absolutamente confortável em transformar o próprio corpo em extensão do styling!
Era sexy sem pedir licença. Limpo sem ser apagado. E, acima de tudo, seguro. Se os anos anteriores foram de experimentação, 2014 foi o momento em que Rihanna passou a transmitir uma mensagem silenciosa: “eu sei exatamente onde estou”.
Existe um antes e um depois do vestido amarelo! Para o tema “China: Through the Looking Glass”, Rihanna surgiu com a monumental criação couture de Guo Pei em amarelo imperial, bordada com fios dourados, pele amarela na barra e uma cauda colossal que tomou conta da escadaria.
Não foi só um look. Foi um acontecimento cultural.
As fotos correram o mundo, a peça virou meme, pauta, fantasia, análise de moda e referência instantânea. De repente, Rihanna deixou de ser uma convidada estilosa para virar o parâmetro pelo qual todas as outras passariam a ser comparadas. Quem veio depois parecia pequeno. Quem veio antes parecia ensaio.
Naquela noite, Rihanna entendeu - e o Met também! - que sua presença já era uma atração por si só.
Se 2015 a transformou em lenda, 2017 e 2018 consolidaram sua assinatura: Rihanna não veste apenas roupas, ela interpreta conceitos!
Em 2017, na homenagem a Rei Kawakubo, a cantora escolheu uma escultura vestível da Comme des Garçons, com pétalas tridimensionais, volumes inflados e assimetria completa. Era um look difícil, quase impraticável, e justamente por isso funcionou: Rihanna parecia ter entendido que o Met premia quem arrisca. Mas foi em 2018 que veio a canonização definitiva.
Como co-chair da noite “Heavenly Bodies”, ela apareceu de Maison Margiela em um minivestido cravejado de pedrarias, manto longo bordado e uma mitra papal brilhante na cabeça. Sexy, religiosa, irreverente, teatral e perfeitamente temática. A internet imediatamente batizou: “Papa Rihanna”.
Ali não havia mais debate! Rihanna era oficialmente a pessoa a ser esperada.
Curiosamente, depois de dominar a lógica do exagero, Rihanna passou a brincar também com a contenção.
Em 2021, no retorno pós-pandemia, escolheu um visual preto oversized de Balenciaga Couture: enorme, fechado, soturno e quase sem pele aparente. O drama estava no volume, não no brilho. Era um look de presença silenciosa e ainda assim um dos mais comentados.
Em 2023, homenageando Karl Lagerfeld, surgiu de branco em Maison Valentino, coberta por uma estrutura floral de camélias tridimensionais que escondia a cabeça como um casulo. Rihanna podia chegar maximalista, minimalista, coberta ou sensual... a expectativa em torno dela seria a mesma!
No Met Gala 2025, Rihanna fez o que poucas celebridades conseguem: transformou um anúncio pessoal em performance de tapete vermelho sem parecer calculada demais.
Usando um look de Marc Jacobs que misturava jaqueta cropped, gravata, bustiê e saia de alfaiataria desconstruída, ela deixou a barriga da terceira gravidez em evidência e roubou o foco mais uma vez.
A roupa era boa. A imagem era melhor ainda. Rihanna já não comparecia ao Met apenas para vestir o tema; ela comparecia para produzir narrativa!
Na edição deste ano, que antecede a abertura da exposição Costume Art e convida os presentes a refletirem sobre a relação entre moda, arte e corpo sob o dress code “Fashion is Art”, Rihanna voltou à escadaria em grande estilo: um look dourado arquitetônico da Maison Margiela, sob direção criativa de Glenn Martens.
A produção trazia uma espécie de moldura têxtil oval contornando todo o tronco, como se a cantora surgisse emoldurada dentro da própria obra. Era uma verdadeira instalação vestível - conceito que conversa diretamente com a proposta do Costume Institute de pensar a figura humana como base para a arte e para as treze seções temáticas da mostra idealizada por Andrew Bolton.
Mais uma vez, Rihanna não chegou vestida. Chegou curada!
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